Echtra Cormaic i Tír Tairngire

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Echtra Cormaic i Tír Tairngire

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Do Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”, col. 889, l. 26, p. 181; Irlanda, c. 1391 – c. 1401.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Certa vez em que Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas, estava em Liathdruim, ele viu um rapaz no campo diante de sua fortaleza, tendo na mão um cintilante ramo encantado com nove maçãs de ouro vermelho. E era esta a propriedade desse ramo, que, quando qualquer um o agitasse, homens e mulheres feridos seriam acalentados pelo som da dulcíssima música mágica que as maçãs emanavam e outra propriedade era que ninguém na terra manteria no pensamento qualquer preocupação, pesar ou tristeza na alma quando o ramo lhe fosse balançado e, com o sacudir do ramo, ninguém se lembraria de qualquer mal que pudesse ter ocorrido. Cormac disse ao jovem: “É teu esse ramo?” “Certamente é meu”, disse o rapaz. “Tu o venderias?”, perguntou Cormac. “Vendê-lo-ia”, falou o jovem, “pois nunca tive nada que eu não vendesse”. “O que pedirias por ele?”, disse Cormac. “O preço que a minha boca disser”, disse o rapaz. “De mim o receberás”, disse Cormac, “e dize o teu preço”. “A tua esposa, o teu filho e a tua filha”, respondeu o rapaz, “isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Terás a todos”, disse Cormac.

Depois disso, o rapaz entregou o ramo e Cormac levou-o a sua própria casa, a Ailbhe, a Eithne e a Cairbre. “Belo é o tesouro que tens”, disse Ailbhe. “Isso não me espanta”, respondeu Cormac, “pois paguei bom preço por ele”. “O que deste por ele ou que troca fizeste?”, perguntou Ailbhe. “Cairbre, Eithne e tu mesma, ó Ailbhe”. “Isso é uma lástima”, falou Eithne, “ainda que não seja verdade, pois pensamos que não haja na face da terra tesouro pelo qual nos trocarias”. “Dou a minha palavra”, disse Cormac, “de que vos dei por este tesouro”. Tristeza e pesar encheram os seus corações ao saber que aquilo era verdade e Eithne disse: “É uma barganha muito dispendiosa entregar-nos em troca de qualquer ramo no mundo”.

Quando Cormac percebeu que a tristeza e o pesar haviam invadido os seus corações, agitou o ramo contra eles e, ao ouvirem a suave e doce música do ramo não mais pensaram em qualquer mal ou preocupação que os tivesse atingido e saíram para encontrar o rapaz. “Aqui”, disse Cormac, “tens o preço que pediste pelo ramo”. “Bem cumpriste a tua promessa”, disse o rapaz, “e recebeste votos de vitória e bençãos em atenção à tua veracidade”. E deixou Cormac com desejos de prosperidade e saúde e ele e os seus companheiros seguiram o seu caminho.

Cormac foi para a sua casa e, quando essas notícias foram ouvidas em toda a Ériu, altos clamores de pranto e lamentação ergueram-se em cada parte dela e sobretudo em Liathdruim. Quando Cormac escutou os estrondosos clamores em Temhair, sacudiu o ramo entre eles, de modo que não houve mais tristeza ou pesar nos corações de ninguém.

Ele assim continuou durante todo aquele ano, até dizer: “Hoje faz um ano que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram tomados de mim e segui-los-ei pelo mesmo caminho por onde foram”.

Então Cormac saiu para procurar o caminho pelo qual vira partir o rapaz e uma escura névoa mágica levantou-se ao seu redor e ocorreu que ele chegou a uma admirável e maravilhosa planície. Era assim essa planície: havia ali uma soberba e grandíssima legião de cavaleiros e a atividade que estavam a realizar era cobrir uma casa com um telhado de penas de pássaros exóticos e, ao terminar de cobrir metade da casa, saíam a procurar penas de aves para a outra e, quanto à metade da casa que já haviam coberto, sobre ela não encontravam uma só pena ao retornar. Cormac ficou longo tempo a observá-los nesse mister e assim falou: “Não mais vos observarei, pois percebo que nisso vos esforçareis do começo ao fim do mundo”.

Cormac seguiu o seu caminho e estava a perambular pela planície quando viu um jovem de estranha aparência a caminhar por ali e o seu ofício era este: ele arrancava do chão uma enorme árvore e partia-a entre a raiz e a copa e com ela fazia uma grande fogueira e saía a procurar outra árvore e, ao retornar, não encontrava diante de si sequer um restolho da primeira árvore que não estivesse queimado e consumido. Por um grande lapso de tempo esteve Cormac a observá-lo naquele dilema e por fim disse: “Certamente te deixarei a partir deste momento, pois, ficasse eu a olhar-te para sempre, estarias na mesma até o fim dos tempos”.

Depois disso, Cormac começou a percorrer a planície até divisar três imensas fontes nas extremidades da planície e assim eram essas fontes: nelas havia três cabeças. Cormac achegou-se à fonte que estava mais próxima de si e assim era a cabeça que nela estava: uma correnteza fluía para sua boca e duas correntezas dela fluíam. Cormac avançou para a segunda fonte e a cabeça que estava nessa fonte era assim: uma correnteza para ela fluía e outra correnteza dela fluía. Ele avançou para a terceira fonte e assim era a cabeça que nela estava: para sua boca três correntezas fluíam e somente uma correnteza dela fluía. Com isso foi Cormac tomado de grande assombro e disse: “Não mais estarei a observar-vos, pois jamais encontrarei homem que me conte as vossas histórias e acredito que descobriria bom ensinamento nos vossos significados se os compreendesse”.
O rei de Ériu seguiu o seu caminho e não havia caminhado muito quando viu um vasto campo diante de si e uma casa no meio do campo. E Cormac aproximou-se da casa e nela entrou. E o rei de Ériu saudou os que dentro estavam. Um casal muito alto com vestes multicoloridas, que dentro estava, respondeu-lhe e rogou-lhe que permanecesse. “Quem quer que sejas, ó jovem, pois já não é hora de viajares a pé”.

Assim, Cormac, filho de Art, sentou-se e ficou certamente satisfeito por encontrar hospitalidade naquela noite. “Levanta-te, ó homem da casa”, disse a mulher, “pois há um honesto e bem-apessoado viajante em nossa casa e como poderias saber se não é algum honrado nobre entre os homens do mundo? E, se tiveres algum tipo de comida ou carne da melhor qualidade, que me sejam trazidos”.

Ao escutá-la ergueu-se o jovem e deste modo voltou até eles, isto é, com um enorme javali selvagem nas costas e uma tora em sua mão e jogou a tora e o suíno no chão e disse: “Aqui tendes a carne e cozinhai-a para vós mesmos”. “Como devo fazê-lo?”, perguntou Cormac. “Ensinar-te-ei”, disse o jovem, “ou seja, racha esta grande tora que tenho e dela faze quatro peças e joga um quarto do javali e um quarto da tora embaixo dele e conta um conto verdadeiro e o javali será cozido”.

Disse Cormac: “Narra tu mesmo o primeiro conto e então a tua esposa e depois disso será a minha vez”. “Falas acertadamente”, disse o jovem, “e penso que tens a eloquência de um príncipe e para começar contar-te-ei um caso. Aquele suíno que eu trouxe”, ele continuou, “não tenho senão sete desses porcos e com eles eu poderia alimentar o mundo inteiro, pois, dentre esses porcos o que for morto, tens apenas de colocar os seus ossos de volta no chiqueiro e na manhã seguinte ele será encontrado vivo”. Esse caso era verdadeiro e o quarto do porco ficou cozido. “Conta tu uma história agora, ó mulher da casa”, disse o jovem. “Contarei”, ela falou, “e põe tu ali um quarto do javali selvagem e sob ele um quarto da tora”. Assim foi feito.

Disse ela: “Tenho sete vacas brancas e elas enchem as sete cubas com leite todos os dias e dou minha palavra que elas produziriam leite suficiente para satisfazer todos os homens do mundo caso estes estivessem a bebê-lo na planície”. Esse caso era verdadeiro e, por conseguinte, o quarto do porco ficou cozido.

Disse Cormac: “Se verdadeiras foram as vossas narrativas, és por certo Manannán e ela é tua esposa, pois ninguém na face da terra possui tais tesouros senão Manannán, eis que foi a Tír Tairngire que ele foi em busca dessa mulher e obteve com ela essas sete vacas e sobre elas tossiu até aprender os miraculosos poderes da sua ordenha, ou seja, que elas poderiam encher sete cubas de uma vez só”. “Com total acerto nô-lo disseste, ó jovem”, disse o homem da casa, “e conta-nos um caso a teu próprio respeito agora”.

Disse Cormac: “Contarei e põe tu um quarto da tora sob o caldeirão até que eu te conte um conto verdadeiro”. Assim foi feito e Cormac disse: “Seguramente estou em uma busca, pois hoje se completou um ano desde que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram levados de mim”. “Quem os tomou de ti?”, perguntou o homem da casa. “Um jovem veio a mim”, disse Cormac, “que segurava em sua mão um ramo encantado e surgiu em mim grande desejo por esse ramo, de modo que lhe concedi por ele qualquer preço que pedisse e ele exigiu-me o cumprimento da minha palavra e a recompensa que de mim extorquiu foram a minha mulher, o meu filho e a minha filha, isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Se é veraz quanto dizes”, falou o homem da casa, “és por certo Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas”. “Deveras sou”, disse Cormac, “e é à procura deles que agora estou”. Verdadeiro era o relato e o quarto do porco ficou cozido.

Disse o jovem: “Agora come a tua refeição”. “Jamais consumi uma refeição”, disse Cormac, “com somente duas pessoas em minha companhia”. “Comerias com três outras, ó Cormac?”, perguntou o jovem. “Comeria, se me fossem queridas”, disse Cormac.
O homem da casa levantou-se e abriu a porta mais próxima da casa e saiu e trouxe para dentro aqueles a quem Cormac buscava e então ânimo e júbilo tomaram Cormac.

Manannán então veio a ele em sua forma verdadeira e assim falou: “Fui eu quem os levou de ti e fui eu quem te deu esse ramo e foi a fim de trazer-te a esta casa que os tomei de ti e agora aqui está a tua carne e come a comida”, disse Manannán. “Assim farei”, disse Cormac, “se puder compreender os enigmas que hoje vi”. “Irás compreendê-los”, disse Manannán, “e fui eu quem te trouxe até eles para que os pudesses ver. A legião de cavaleiros que te apareceu a cobrir a casa com as penas de pássaros, que, conforme lograssem eles cobrir uma metade da casa, costumavam dali desaparecer, saindo então em busca das penas de outras aves para o restante, tal assemelha-se aos poetas e às pessoas que buscam a sorte, pois, ao partirem, tudo o que deixam para trás em suas casas é consumido e assim continuam para sempre. O rapaz que viste a acender o fogo e que partia a árvore entre a raiz e a copa e depois encontrava-a consumida enquanto ia alhures em busca de outra árvore, o que isso representa são aqueles que distribuem comida enquanto todos os demais estão sendo servidos, eles próprios preparando-a e todos os outros disso tirando proveito. As fontes que viste, nas quais havia três cabeças, assemelham-se aos três que no mundo há. Tais são eles: a cabeça que viste com uma correnteza a fluir para si e duas correntezas a fluir de si, seu significado é o homem que dá mais do que recebe do mundo. A cabeça que possui uma correnteza fluindo para si e uma correnteza de si fluindo é o homem que dá do mundo na mesma medida em que deste recebe. A cabeça que viste com três correntezas a fluir para sua boca e uma correnteza a fluir desta é o homem que recebe muito e dá pouco e é o pior dos três. E agora come a tua refeição, ó Cormac”, disse Manannán.

Depois disso, Cormac, Cairbre, Ailbhe e Eithne sentaram-se e uma toalha foi estendida diante deles. “É algo de muito precioso isto que se encontra diante de ti, Cormac”, disse Manannán, “pois não há comida, por mais refinada que seja, que lhe possa ser solicitada que não seja certamente recebida”. “Isso é bom”, disse Cormac.

Depois disso, Manannán levou a mão a seu cinturão e trouxe dali um cálice e mostrou-o em sua palma. “É das virtudes desta taça”, disse Manannán, “que, ao ser dito diante dela um relato falso, quebre-se em quatro partes e, quando um relato verdadeiro for narrado diante dela, ficará inteira outra vez”. “Que seja demonstrado”, disse Cormac. “Isso será feito”, disse Manannán. “Essa mulher que levei de ti teve outro homem desde que a trouxe comigo”. Então o cálice quebrou-se em quatro partes. “Isso é uma mentira”, disse a esposa de Manannán, “digo que eles não viram homem nem mulher a não ser a si mesmos desde que te deixaram”. Esse relato era verdadeiro e o cálice ficou inteiro novamente.

Disse Cormac: “São coisas muito preciosas estas que possuis, ó Manannán”. “Seriam boas para ti”, respondeu Manannán, “portanto, todas as três serão tuas, ou seja, o cálice, o ramo e a toalha, em respeito à tua caminhada e à tua jornada neste dia. E come agora a tua refeição, pois, ainda que houvesse uma legião e uma multidão, neste lugar mesquinhez não encontrarias. E gentilmente vos saúdo a todos, pois fui eu quem sobre vós lançou um encantamento para que em amizade estivésseis comigo nesta noite.

Depois disso, ele comeu a sua refeição e boa foi essa refeição, pois não havia tipo de carne em que pensassem que não fosse encontrado na mesa nem tipo de bebida que imaginassem que não fosse encontrado na taça e profusamente agradeceram a Manannán. Contudo, quando eles haviam consumido a sua refeição, isto é, Cormac, Eithne, Albhe e Cairbre, um divã lhes foi preparado e foram dormir e dormiram docemente e onde acordaram foi na aprazível Liathdruim, com a sua toalha, a sua taça e o seu ramo.

E essa foi a peregrinação de Cormac e como ele obteve o seu ramo.

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Tecosca Cormaic

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Tecosca Cormaic

As Instruções de Cormac

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?

– Não é difícil dizer – disse Cormac.

– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Martrae

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Martrae

Filus trechenelae martre daneu adrímiter ar cruich du duiniu, ma desgné: bánmartre ocus glasmartre ocus dercmatre. issí bánmartre do duiniu, intain scaras ar Dea fri cach reet caras cení césa aíni na laubí n-oco. is sí ind glasmartre dó, intain scaras fria thola leol céssas saítbor i-ppennit ocus aithrigi. is sí in dercmartre dó, foditu cruche ocus diorcne ar Chríst, amail tondechomnuchuir dundaib abstolaib, oc ingrimmim inna clóen ocuis oc forcetul recto Dée. congaibetar inna tre chnél marte-so issnib colnidib tuthégoth dagathrigi, scarde fria ola, céste sáithu, tuesmot a fuil i n-aíni ocuis i laubair ar Chríst.

Martírio

Eis que há três tipos de martírio que se contam como uma cruz para o homem, ou seja, o martírio branco [bánmartre], o martírio verde [ou azul, glasmartre; eram tidos como nuances da mesma cor] e o martírio vermelho [dercmartre]. Eis aqui o que seja o martírio branco para o homem: a partir do momento em que, pelo amor de Deus, ele abandona tudo o que ama, embora não sofra por isso jejuns e tribulações. Eis o que seja o martírio azul para ele: quando, por meio de jejuns e tribulações, ele renuncia os seus desejos carnais ou sofre provação em penitência e arrependimento de suas faltas. Eis o que seja o martírio vermelho para ele: suportar uma cruz ou a destruição pelo amor de Cristo, como o suportaram os apóstolos ao ensinar a lei divina, apesar da perseguição dos perversos. Esses três tipos de martírio abrangem os homens carnais que se voltam ao bom arrependimento, que se afastam dos seus desejos, que derramam o seu sangue em jejum e trabalhos pelo amor de Cristo.

Trecho da Homilia de Cambrai, o mais velho registro de um texto em prosa em irlandês antigo (séc. VII/começo do séc. VIII d.C.)

Comentário

A distinção do martírio branco e do martírio vermelho é frequente e não apresenta nada de original. O conceito de um martírio verde, ao contrário, é unicamente irlandês e vem completar o grupo formado pelos outros dois, retomando o velho esquema trifuncional indo-europeu. Associado ao amor de Deus, o martírio branco coloca-se ao nível do contato com o divino; o martírio vermelho relaciona-se à violência física e refere-se ao sofrimento de Jesus, o deus do Cristianismo ferido pela lança do soldado Longinus e sacrificado na cruz; o martírio verde define-se como a rejeição às paixões físicas e aos impulsos carnais, a tudo o que se liga à terceira função indo-europeia, pois diz respeito aos bens materiais e à perpetuação da espécie.

Bellou̯esus Īsarnos

O Corte do Visco

07

Non est omittenda in hac re et Galliarum admiratio. Nihil habent Druidae — ita suos appellant magos — uisco et arbore, in qua gignatur, si modo sit robur, sacratius. Iam per se roborum eligunt lucos nec ulla sacra sine earum fronde conficiunt, ut inde appellati quoque interpretatione Graeca possint Druidae uideri. Enimuero quidquid adgnascatur illis e caelo missum putant signumque esse electae ab ipso deo arboris. Est autem id rarum admodum inuentu et repertum magna religione petitur et ante omnia sexta luna, quae principia mensum annorumque his facit et saeculi post tricesimum annum, quia iam uirium abunde habeat nec sit sui dimidia. Omnia sanantem appellant suo uocabulo. Sacrificio epulisque rite sub arbore conparatis duos admouent candidi coloris tauros, quorum cornua tum primum uinciantur. Sacerdos candida ueste cultus arborem scandit, falce aurea demetit, candido id excipitur sago. tum deinde victimas immolant praecantes, suum donum deus prosperum faciat iis quibus dederit. Fecunditatem eo poto dari cuicumque animalium sterili arbitrantur, contra uenena esse omnia remedio. Tanta gentium in rebus friuolis plerumque religio est.

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas – pois é assim que chamam os seus magos – não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se crescesse somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de drus [a palavra grega para carvalho]. E sem dúvida pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em carvalhos. Não obstante, procuram-no com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua, chamam o visco por um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos, conduzindo dois touros brancos cujos chifres são então amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda seu próprio dom àqueles a que ofereceram. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Gaius Plinius Secundus (séc. I d. C.)
Naturalis Historia, XVI, 249-251,

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

 

Anotações Druídicas VI

06

Anotações Druídicas VI: Bardos (Parte 1)

Bellou̯esus Īsarnos

Assim como em relação aos druidas, sobrevivem poucos dados sobre a atividade dos bardos no período pré-clássico. Com os trabalhos dos historiadores gregos e romanos, essa situação melhora um pouco e podemos entrever alguma coisa sobre as atividades profissionais dos bardos da Gália antiga.

Ateneu, escrevendo no séc. II a. C., transmitiu um relato extraído da obra (infelizmente) perdida de Posidônio. Com vista a se tornar popular entre os seus súditos, o nobre arverno Lovérnio ofereceu um grande banquete. Naqueles dias, grandes festas eram tão populares quanto hoje ou talvez mais ainda, pois havia menos entretenimento disponível à população e a expectativa de vida era mais curta. Esperava-se que nobres e chefes tribais fossem generosos e com frequência grandes somas eram gastas para ganhar simpatia e apoio. Esses nobres, que tinham acesso a riquezas minerais, como prata ou sal, que controlavam as vias comerciais ou os rios não raro se tornavam extremamente ricos com tais atividades e exigia-se que ostentassem a sua posição gastando tesouros e dando presentes como se o seu valor não tivesse nenhuma importância. Isso era parte da função de cada governante, porém se fazia ainda mais importante quando um nobre desejava assumir uma posição de comando e tentava cativar a opinião pública com o gasto pródigo de grandes tesouros. O festim de Lovérnio parece ter sido uma ocasião dessas.

Para celebrar adequadamente, um recinto quadrangular foi demarcado para a ocasião e podemos imaginar o número dos participantes pelas dimensões do espaço: cerca de 2,5 km em cada lado. Comida e bebida de graça eram oferecidas para manter todos os convidados satisfeitos. Sem dúvida, um grande número de bocas famintas viajou para comparecer à festa. Durante muitos dias, Lovérnio exibiu sua riqueza e generosidade.

Então, no último dia, ele coroou sua exibição fazendo-se conduzir em carruagem pela planície, jogando peças de ouro à multidão de “dezenas de milhares” de gauleses que o seguiam. Foi nesse momento que um poeta apareceu, o primeiro a ser mencionado nos livros de história, mas chegando atrasado ao banquete. Cansado da viagem, o bardo viu Lovérnio passar na sua carruagem esplêndida, cercado por centenas de pessoas que lutavam pelos tesouros arremessados em cima delas. O poeta percebeu e começou a correr atrás da carruagem. Dando cotoveladas em uns e outros, ele se aproximou do veículo. Correndo ao lado dele, possivelmente resfolegando, começou a cantar uma canção de louvor para Louérnio, celebrando sua generosidade incomparável e o seu próprio infortúnio por chegar tão tarde.

Lovérnio, agradado pelos esforços do poeta, jogou-lhe uma bolsa de ouro. Isso imediatamente desatou ainda mais a criatividade do bardo, que, improvisando, declarou que os próprios rastros da carruagem de Louérnio eram uma fonte de ouro e generosidade para a raça humana.

Temos aí o primeiro aparecimento de um bardo na literatura clássica. Como se pode ver, o poeta mostrou o comportamento típico dos bardos que vieram depois dele: sabia como obter lucro, como lisonjear a nobreza e era capaz de improvisar em circunstâncias decididamente difíceis.

Nossa próxima fonte é a “História Gaulesa” de Apiano, que descreveu, no Livro XII, a reunião ocorrida entre um embaixador dos Alóbroges (ou talvez dos Arvernos) e o cônsul Domício, representante do exército romano. O embaixador gaulês obviamente era homem de certa importância e riqueza. Viajou acompanhado de assistentes, servos, cães e até mesmo de um bardo no seu cortejo. Ao encontrar o cônsul Domício, o bardo avançou ousadamente e cantou ao modo gaulês uma canção de louvor comemorando o nobre nascimento do seu grande monarca, Bituito, sua bravura, seu sucesso em batalha e sua riqueza imensa, as grandes virtudes do embaixador e, claro, de si mesmo. Apiano observou que era por causa de elogios desse tipo que todos os embaixadores de distinção viajavam acompanhados de bardos. Embora a presença de um bardo pareça ter sido importante nos encontros políticos dos estadistas gauleses, sua vanglória não impressionou o cônsul romano de jeito nenhum.

Tais relatos mostram uma razoável evidência de que pessoas com funções bárdicas detinham posição vital na diplomacia da Gália antiga do séc. II a. C. Apesar de não ser diplomatas, serviam como apoio ao papel dos diplomatas, forneciam boa reputação à aristocracia e também uma dose de entretenimento. Para as mentes modernas, esse ofício pode parecer um pouco estranho.

Os bardos de épocas antigas, assim como os mais tardios, eram adeptos da arte da vanglória. Esperava-se isso deles, pois um nobre que não fosse elogiado com os termos mais desatinados não seria tido como grande coisa. As pessoas que ouviam as genealogias e os feitos heroicos tais como proclamados pelos bardos geralmente sabiam que as coisas não eram exatamente daquele jeito, mas isso não era razão para diminuir os superlativos. Uma das questões mais cruciais nas culturas célticas era a reputação de que uma pessoa desfrutava.

Se você ler a literatura heroica da Irlanda e de Gales, logo se acostumará a um mundo onde o prestígio era essencial à sobrevivência e a vanglória, uma parte previsível e aceitável das trocas sociais.

Um governante sem louvor ou um guerreiro sem histórias de grandes feitos eram algo impensável. Os relatos mais interessantes não somente eram inventados, mas aparentemente a boa educação exigia que os ouvintes escutassem cada palavra como se estivessem ouvindo um relato comedido e realista. Se você quisesse superar um falastrão, teria que inventar uma história melhor ou contratar um profissional, um bardo, para fazê-lo no seu lugar.

Esse comportamento pode parecer de mau gosto na sociedade moderna, mas possuía uma função muito útil nas sociedades do passado. A cada inverno longo e escuro, os reis e nobres festejavam com os seus guerreiros. Enquanto se embebedavam alegremente com doce hidromel, contavam uns aos outros os seus grandes feitos e os bardos do salão recitavam os louvores celebratórios dos feitos ainda mais impressionantes dos ancestrais. Esperava-se que um bom rei fizesse a guerra ao menos uma vez por ano, invadisse o território de outro regente, saqueasse, atacasse e roubasse o gado. Quando chegava a estação mais quente, votos de aliança eram dados ou quebrados e os nobres guerreiros teriam que provar a validade da sua vanglória em combates verdadeiros.

Naqueles dias, a guerra era uma atividade altamente ritualizada. As tropas de combatententes encontravam-se comumente em espaço aberto. Então, um guerreiro de boa família tomaria a frente, jactando-se de suas proezas de armas e do que pretendia fazer em breve com o inimigo. Dou outro lado, irromperia um heroi com o mesmo ânimo a bradar sua nobre linhagem e intenções sangrentas. Uma palavra puxava outra, insultos seguiam-se e, antes que muito tempo se passasse, ossos estavam se quebrando e pedaços de corpos voando pra cá e pra lá. Na sequência, a próxima dupla de herois tomaria suas posições e repetiria todo o procedimento. Em certos relatos, os nobres falavam por si mesmo, em outros era um bardo profissional ou mesmo o condutor do carro de guerra (também versado na arte do bem falar) que cumpriam essa função.

Ocorreriam então os combates grupais, ou mesmo o raro duelo entre reis ou chefes tribais, porém fica claro que esse tipo de guerra era um processo lento, muito diferente do bellum romanum, empresa coletiva, pois todos queriam ser vistos e admirados individualmente. os guerreiros temiam menos morrer do que acabar com má reputação. A morte, afinal, era algo que a todos ocorreria e deveria ser esperada. Tampouco importava muito morrer, desde que a luta fosse magnífica e os bardos compusessem um bom poema a respeito dela, uma canção de louvor que atravessasse as gerações e inspirasse iguais feitos de bravura nos homens do futuro. Desse modo, a vanglória, fosse autoproclamada ou realizada por um profissional, estabelecia um padrão de comportamento e estimulava guerreiros e soberanos a viver em função da sua reputação pessoal.

A função dos bardos era manter a memória do heroísmo passado viva para as gerações futuras a fim de que semelhantes atos de bravura continuassem a ser um ideal. Quando guerreiros nobres exigiam louvor para sentir-se engrandecidos, o mesmo ocorria de forma mais rigorosa para reis e líderes tribais. Pelo que relataram os autores clássicos, a função dos bardos parece ter sido eminentemente política. Em linguagem moderna, uma comparação possível seriam os especialistas em relações públicas ou portavozes oficiais. Isso, no entanto, não era o todo da sua profissão.

Anotações Druídicas V

05

Anotações Druídicas V: Nuvem Mágica

Bellou̯esus Īsarnos

A Nuvem da Testemunha (1)

Sobre ti uma nuvem mágica eu coloco,
[Para guardar-te] de cão, de gato,
De vaca, de cavalo,
De homem, de mulher,
De mancebo, de donzela,
E de criancinha,
Até que novamente eu retorne.
Em nome de Esus, Lugus e Maponos (2).

Comentário:

No livro de que este encantamento foi traduzido e adaptado (William Mackenzie, Gaelic Incantations), essa pequena composição traz o título Fath Fithe, traduzido como “Nuvem Mágica”. Mackenzie explica que o Fath Fithe era um dos encantamentos preferidos dos caçadores na Escócia gaélica, pois permitia tornar objetos físicos invisíveis à visão comum. Assim, os caçadores poderiam voltar da floresta carregados com os despojos da caça, mas invisíveis aos seus inimigos. Acreditava-se que até mesmo contrabandistas poderiam servir-se dele para escapar aos funcionários do Fisco! O autor acrescenta que, na sua época (o livro foi publicado nos últimos anos do séc. XIX), as menções ao Fath Fithe eram já muito raras, embora se pudesse considerar que em tempos mais antigos fosse tido como eficiente encantamento de proteção.

A crença no poder de causar invisibilidade, escuridão ou confusão era muito antiga entre os povos célticos e esse pequeno encantamento escocês possui um precedente inegável na tradição irlandesa, pois foi essa mesma névoa mágica que as Tuatha Dé Danann usaram para esconder Ériu dos Filhos de Mil num manto de brumas, não logrando sucesso porque a magia de Amergin Glúingel, file (poeta sagrado) e breitheamh (especialista em questões legais/árbitro), foi mais potente que a dos druidas das Tuatha Dé. A névoa mágica foi dissipada, os Milesianos desembarcaram, derrotaram os antigos senhores da ilha e ocupam Ériu, a Irlanda, até o dia de hoje.

O velho fath fithe da Escócia é realmente a contraparte do irlandês féth fíada (“névoa da maestria ou conhecimento”) ou ceó druídecta (“bruma druídica”), encantamento ensinado por Manannán Mac Lir às Tuatha Dé Danánn para que se ocultassem dos Filhos de Mil. É o domínio da bruma mágica que torna os deuses materialmente distintos dos humanos, pois permite que os deuses vejam uns aos outros, mas não sejam vistos por olhos mortais (3).

Além da sua função como instrumento mágico de ocultação, o féth fíada pode apresentar ocasionalmente um aspecto sinistro, prenúncio da carnificina, manifestando-se como a “bruma guerreira” de três cores (preta, vermelha e verde), que encontramos no conto Tochmarc Ferbe (“A Corte a Ferbe”):

Luid iarom Conchobar, tri choicait laech impu sin, agus ni ruc nech do Ultaib leis, acht sé féin agus a ara .i. Brod agus Imrind in drúi .i. mac Cathbath. Ni bái dana gilla oc neoch díb acht gilla Conchobair, acht a scéith for a munib leo agus allaigne lethanglassa inallámaib agus a claidib tromma tortbullecha for a cressaib. Ni ba lín tra ba mesta forru, bá mór a toilc menman. O ro siachtatar iarom co m-batar ic fegad in dúnaid úathu innund, atchonncatar tromnél dímór uas chind in dúnaid. Cirdub indara cend dó agus dergg a medon agus glass in cend aile. Iarfaigis Conchobar iarsin: Cid co tirchain a Imrind, ar se, in nél út atchiam uasin dunud. Tirchanaid ém, ar Imrind, ág agus urbaid na haidchi innocht.

E Conchobar partiu, estando com ele três vezes cinquenta guerreiros que cercavam esses chefes, e ele não levou consigo nenhum dos Ultu exceto ele próprio e Brod, o seu auriga, e Imrinn, o Druida, que era o filho de Cathbath. E nenhum desses guerreiros tinha um servo consigo, exceto o servo de Conchobar somente, mas traziam os escudos em suas costas e suas brilhantes lanças verdes em suas mãos, e suas pesadas espadas de potentes golpes em seus cinturões. Contudo, eles não deviam ser desprezados por causa de seu número, grande era o orgulho de suas almas. E quando eles chegaram a esse local de onde a fortalza de Greg podia ser por eles vista, contemplaram uma pesada nuvem que pairava sobre o forte. Uma extremidade da nuvem era negra como carvão e o seu meio era vermelho e a outra ponta era verde. Assim, Conchobar falou a Imrinn, o Druida: “Dize-me, ó Imrinn”, ele falou, “que presságio significa essa nuvem que vemos sobre a fortaleza?” “Verdadeiramente”, disse Imrinn, “isso significa um combate que durará a noite toda e a morte nesta noite” (4).

Não obstante sua indissociável ligação com o contexto pagão, a técnica mágico-druídica do féth fíada não desapareceu com a conversão ao cristianismo ou foi por este rejeitada. Ao contrário, passou a ser usada a serviço da nova fé, como fica demonstrado na Bethu Phátraic (“Vida de Pádraig”):

Nír bu cían iarsin róchoggair in rí leis Pátraic forleith, ocus ised roimraid amarbad, ocus ní forchoemnacair. Forfhoilsig Día do Pátraic inní sin. Adrubairt Láogairi fri Pátraic: “Tair im díaidsi, achleirig, do Temraig corochreitiur duit arbélaibh fer nEirenn”. Ocus rosuidigsom calleic etarnais cechbelaig oFherta Fer Féic co Temraig archiunn Pátraic diamhabad. Acht nírocomarleic Día dó. Dodhechaid Pátraic ochtor macccléirech ocus Benén do gillu léu, ocus rosbendach Pátraic réduidecht. Dodechaid dícheltair tairsiu conárárdraig fer dib. Atchoncatar, immorro, na gentlidi batar isna intledaib ocht naige altaige dotecht secu fón sliab, ocus iarndóe innandegaid ocus gaile for agúalaind: Pátraic aochtar, ocus Benén inandegaidh ocus a fholaire for a muin.

Tunc uir sanctus composuit ilium hymnum patrio idiomato conscriptum, qui uulgo Fáed fíada, et ab aliis Lorica Patricii appellatur. Et in summo abinde inter Hibernos habetur pretio, quia creditur, et multa experientia probatur, pie recitantes ab imminentibus animae et corporis praeseruare periculis.

Não muito tempo depois, o rei chamou Pátraic em particular e cogitou matá-lo e isso não veio a acontecer. Deus manifestou isso a Pátraic. Loegaire disse a Pátraic: “Segue-me, ó clérigo, para Temuir, para que eu creia em ti ante todos os homens de Ériu”. E imediatamente ele preparou uma emboscada desde as Tumbas dos Homens de Fíacc até Temuir, diante de Pátraic, para matá-lo. Deus, porém, não permitiu que isso lhe acontecesse. Patraic chegou com oito de seus jovens clérigos e Benén como um noviço com eles e Patraic abençoou-os antes de partir. Um véu de escuridão desceu sobre eles de forma que nenhum desses homens pôde ser visto. Contudo, os pagãos que estavam escondidos nas redes viram oito gamos passar sob a montanha e atrás deles um jovem cervo com um feixe de galhos em seus ombros: esse era Pátraic com os seus oito e Benén atrás deles com suas tabuletas de escrever nas costas.

Então o homem santo compôs aquele hino em sua língua nativa, que é comumente chamado Feth-fiadha e, por outros, Lorica [“Couraça”] de Pátraic; e desde então foi tido pelos irlandeses na mais alta estima, pois acredita-se – o que está comprovado por muitas experiências – que seja capaz de proteger contra perigos que os ameacem na alma e no corpo (5).

O hino acima aludido é a “Couraça de São Patrício” (Lorica Patricii). Essa venerável oração irlandesa não é outra coisa senão a versão cristã de uma técnica mágica do passado pagão da Irlanda.

Lorica Sancti Patricii

A Couraça de São Patrício

Patraicc dorone in nimmun-sa; i naimseir Loegaire meic Néil dorigned; fád a dénma immorror dia diden co na manchaib ar náimdib in báis robátar i netarnid ar na cleircheib. Ocus is luirech hirse inso fri himdegail cuirp ocus anma ar demnaib ocus dúinib ocus dualchib: cech duine nosgéba chech día co ninnithem léir i nDia, ní thairisfet demna fria gnúis, bid dítin dó ar cech neim ocus format, bid comna dó fri dianbas. bid lu’rech dia anmain iar na étsecht. Patraicc rochan so in tan dorata na hetarnaidi ar a chinn ó Loegaire, na disged do silad chreitme co Temraig, conid annsin atchessa fiad lucht na netarnade comtis aige alta ocus iarróe i na ndíaid .i. Benen; ocus “fáeth fiada” a hainm.

Patraicc fez este hino; na época de Loegaire mac Neill foi feito e a causa da sua composição foi a proteção de si mesmo e dos seus monges contra os inimigos mortais que estavam em emboscada contra os clérigos. E é uma couraça de fé para a proteção do corpo e da alma contra demônios e homens e vícios; quando alguém a recitar diariamente com meditação piedosa sobre Deus, os demônios não ousarão enfrentá-lo, será uma proteção para ele contra todo veneno e inveja, será um guarda para ele contra a morte súbita, será uma couraça para a sua alma depois da sua morte. Patraicc cantou-a quando as emboscadas foram posicionadas contra ele por Loegaire, a fim de que ele não fosse a Temuir para semear a fé, de modo que, naquela ocasião, foram vistos como se fossem cervo selvagens diante daqueles que estavam em emboscada, tendo por trás de si um gamo, isto é, Benen; e Fáeth Fiada é o seu nome.

Atomriug índiu
niurt tríun togairm Tríndóite
cretim treodatad
foísitin oendatad
in dúilemon dáil.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Atomriug indiu
niurt gene Chríst co na baithius
niurt crochtho co na adnocul
niurt esséirgi cona fresgabáil
niurt tóniud do brethemnas bratha.

Levanto-me hoje:
o poder do nascimento de Cristo e Seu batismo
o poder de sua crucificação e sepultamento
o poder de sua ressurreição e ascensão
o poder de Sua descida para o Julgamento do Destino.

Atomriug indiu
niurt grád Hiruphin;
i nurlataid aingel
hi frescisin eseirge ar cenn fochraice
i nernaigthib huasalathrach,
i tairchetlaib fatha,
hi praiceptaib apstal,
i nhiresaib fuismedach,
i nendgai nóemingen,
hi ngnímaib fer fírean.

Levanto-me hoje:
poder dos graus dos Querubins
na obediência dos Anjos
no ministério dos Arcanjos
na esperança da ressurreição como recompensa
nas orações dos Patriarcas
nas profecias dos Profetas
nas pregações dos Apóstolos,
na fé dos Confessores
na inocência das Virgens Santas
em ações de homens justos.

Atomriug indiu
niurt nime,
soilse gréne,
etrochta snechtai,
áne thened,
déne lóchet,
luathe gáethe,
fudomna mara,
tairisem talmain,
cobsaidecht ailech.

Levanto-me hoje:
poder do céu
brilho do sol
brancura da neve
esplendor do fogo
velocidade da luz
leveza do vento
profundidade do mar
estabilidade da terra
firmeza do rochedo.

Atomriug indiu
niurt Dé do’m luamaracht,
cumachta Dé do’m chumgabail,
ciall Dé do’mm imthús,
rosc nDé do’m reimcise,
cluas Dé do’m étsecht,
briathar Dé do’m erlabrai,
lám Dé do’m imdegail,
intech Dé do’m remthechtas,
sciath Dé do’m dítin,
sochraite Dé do’mm anucul
ar intledaib demna,
ar aslaigthib dualchae,
ar irnechtaib aicnid,
ar cach nduine mídústhrastar dam
i céin ocus i nocus
i nuathad ocus i sochaide.

Levanto-me hoje:
Poder de Deus para guiar-me
Sabedoria de Deus para minha orientação
Olho de Deus para minha previdência
Ouvido de Deus para minha audição
Palavra de Deus para minha fala
Mão de Deus para minha tutela
Caminho de Deus para o meu trilhar
Escudo de Deus para minha proteção
Amizade de Deus para minha salvação
contra armadilhas de demônios
contra seduções de vícios
contra instigações da natureza
contra toda pessoa que me deseje mal
longe e perto
sozinho e na multidão.

Tocuirius etrum thra na huile nertso,
fri cech nert namnas nétrocar fristí do’m churp ocus do’mm anmain,
fri tairchetla saebḟáthe,
fri dubrechtu gentliuchta,
fri sáibṙechtu heretecda,
fri himcellacht nidlachta,
fri brichta ban ocus goband ocus druad,
fri cech fiss arachuiliu anman duini.

Invoco, portanto, todas essas forças para intervir
entre mim e toda força impiedosa e feroz que possa vir sobre o meu corpo e a minha alma:
contra encantamentos de falsos profetas
contra as leis negras do paganismo
contra as falsas leis da heresia
contra o engano da idolatria
contra feitiços de mulheres e ferreiros e druidas
contra todo conhecimento que seja proibido à alma humana.

Crist do’m imdegail indíu
ar neim, ar loscud,
ar badud, ar guin,
co nomthair ilar fochraice;
Crist lim, Crist rium,
Crist i’m degaid, Crist innium,
Crist íssum, Crist úasum,
Crist dessum, Crist tuathum,
Crist illius, Crist isius, Crist i nérus;
Crist i cridiu cech duine immimrorda,
Crist i ngin cech óen rodomlabrathar
Críst in cech rusc nomdercædar
Críst in cech cluais rodamchloathar.

Cristo para a minha tutela hoje
contra veneno, contra a queima,
contra o afogamento, contra ferimentos,
que possa vir a mim uma multidão de recompensas;
Cristo comigo, Cristo diante de mim
Cristo atrás de mim, Cristo em mim
Cristo sob mim, Cristo sobre mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao deitar, Cristo ao sentar, Cristo ao levantar
Cristo no coração de cada pessoa que pode pensar em mim!
Cristo na boca de todos que possam falar comigo!
Cristo em todos os olhos que possam olhar para mim!
Cristo em todo ouvido que possa me ouvir!

Atomriug indiu
niurt trén togairm trinoit
cretim treodatad
fóisin óendatad
in dúilemain dail.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Dominus est salus, domini est salus, Christi est salus;
salus tua, domine, sit semper nobiscum.

O Senhor é a salvação, do Senhor é a salvação, de Cristo é a salvação;
que a tua salvação, ó Senhor, esteja sempre conosco.

Notas

1) Testemunha do conhecimento, conhecedor.

2) Adaptado de Mackenzie, William. Gaelic Incantations: charms and blessings of the Hebrides. Northern Counties Newspaper and Printing and Publishing Company, Limited: Inverness, 1895, p. 49.

3) A bruma mágica não era estranha aos helenos. No Canto XXX da “Ilíada”, é ela o expediente de que se serve Posêidon para ocultar Eneias aos olhos de Aquiles. O Canto V especificamente descreve Atena dando a Diômedes a capacidade de ver os deuses: “E removi o filtro dos teus olhos / que antes os escondia, eis que agora / facilmente distinguirás deuses e homens”. Depois disso, Diômedes feriu Afrodite na mão quando essa deusa tentou resgatar Eneias. O próprio Ares quase morreu aprisionado dentro de um grande vaso, mostrando que os deuses gregos, assim como os hibérnicos, não eram invulneráveis à agressão humana. No relato sobre Jasão e os Argonautas, conta-se que, na busca pelo Velo de Ouro, Hera cobriu os heróis com a mesma névoa mágica a fim de que não percebessem o caminho até chegarem às proximidades do palácio do rei Eetes de Cólquida, pai da feiticeira Medeia.

4) Windisch, Ernst & Stokes, Whitley (ed.). Irische Texte mit Übersetzungen und Wörterbuch in Irische Texte. Leipzig: S. Hirzel, 1897, v.3:2, pp. 475-476.

5) Stokes, Whitley (ed.). The Tripartite Life of Patrick. Londres: Eyre & Spotiswoode, 1887, p. 46 e 48.

Anotações Druídicas IV

04

Anotações Druídicas IV: Direções e Atribuições

Bellou̯esus Īsarnos

Em “A Fundação do Domínio de Temuir” (Suidiugud Tellaich Temra), o ancião Fintan mac Bóchra, o Sábio, tem como missão mostrar que Temuir era e deveria continuar a ser a sede da Realeza Suprema da Irlanda. Ele conta o seguinte:

Uma vez estávamos fazendo uma grande assembleia dos homens da Irlanda ao redor de Conaing Bec-eclach, Rei da Irlanda. Certo dia, então, vimos nessa assembleia um grande herói, belo e poderoso, aproximando-se de nós e vindo do oeste, da direção do pôr-do-sol. Maravilhamo-nos grandemente com a magnitude de sua forma. Tão alto quanto uma árvore era o topo de seus ombros, o céu e o sol visíveis entre suas pernas em razão do seu tamanho e beleza. Um véu de brilhante cristal sobre ele, como uma veste de linho precioso. Sandálias em seus pés e não se sabe de que material eram. Cabelo amarelo-dourado caindo em cachos até a altura de suas coxas. Tábuas de pedra na sua mão esquerda, um ramo com três frutos em sua mão direita e eram estes os frutos que nele estavam, nozes e maçãs e bolotas do mês de maio: e não maduro estava cada fruto. Com passos largos ele caminhou para trás de nós, ao redor da assembleia, com seu ramo dourado de muitas cores de madeira do Líbano atrás de si e um de nós lhe disse: “Vem aqui e conversa com o rei Conaing Bec-eclach”. Ele respondeu e disse: “Que desejais de mim?” “Saber de onde vieste”, disseram eles, “e para onde vais e quais são teu nome e sobrenome.” “Sem dúvida eu vim”, disse ele, “do pôr-do-sol e estou indo para o nascer-do-sol e meu nome é Trefuilngid Tre-eochair”. “Por que te foi dado esse nome?”, disseram eles. “Fácil dizer”, disse ele. “Porque sou eu quem provoca o nascer-do-sol e o seu poente.

Trefuilngid Tre-eochair (“Tríplice Portador da Chave Tripla”), então, é quem provoca a aurora e o poente. Ele fez um pedido: que todos os irlandeses fossem reunidos naquele lugar. Depois que todos estavam presentes, ele perguntou se havia alguém que conhecesse toda a história da ilha. Quando se descobriu que não, ele escolheu um dos presentes para se tornar o depositário desse conhecimento. O escolhido foi Fintan. Fintan depois declarou que Trefuilngid Tre-eochair era “um anjo ou o próprio Deus”.

Um detalhe interessante é que, quando Trefuilngid Tre-eochair pediu que o povo fosse reunido, o rei Conaing Bec-eclach disse que isso poderia ser feito, embora eles não fossem poucos, mas seria difícil para os irlandeses sustentá-lo durante o tempo em que permanecesse com eles. O gigante então declarou que podia se sustentar somente com o aroma do ramo que trazia. Esse ramo merece A nossa atenção. É um ramo dourado, de muitas cores, de madeira do Líbano, com três “frutos” diferentes: nozes, maçãs e bolotas (de carvalho).

Na tradição irlandesa, o ouro não é particularmente significativo, ao contrário da prata, que representa autoridade. A cor dourada indica apenas que o ramo é brilhante e precioso. Já “muitas cores” tem um significado importante: um manto de várias cores representa o próprio druidismo, objetos ou criaturas multicoloridos possuem origem sobrenatural. O ramo é de madeira do Líbano, isto é, cedro. É uma árvore muitas vezes mencionada no Antigo Testamento. Não há cedros na Irlanda, de modo que a referência a essa árvore indica genericamente uma madeira rara e valiosa.

A árvore de que foi retirado esse ramo combina as qualidades de seus frutos. A noz não é necessariamente a proveniente da nogueira, pois, em gaélico medieval, a palavra cno indica ao mesmo tempo a noz e a avelã. Seja como for, essa noz representa sabedoria, poesia, magia, florestas. A maçã é o amor e a felicidade. A bolota é a abundância, enquanto o carvalho indica hospitalidade, tradição e lei. É com o aroma desse ramo que o gigante se alimenta.

A roupa que ele usa é um véu de cristal. Encontramos na lenda céltica barcos de cristal e edifícios de cristal (casas, fortalezas, castelos). Nesse caso, o cristal representa uma técnica e uma perfeição inacessíveis às habilidades humanas, bens que não podem ser comprados por nenhum soberano deste mundo.

Na minha opinião, Trefuilngid Tre-eochair é o deus do tempo gaélico. Além de ser o conhecedor de toda a história, é ele quem regula o curso do sol (aurora e poente). Estou mencionando tudo isso porque é ele próprio quem faz, nesse mesmo conto, as únicas atribuições direcionais seguras existentes na tradição irlandesa (mas as fortalezas e celebrações vêm de Foras Feasa ar Éirinn, “Fundação do Conhecimento sobre a Irlanda” ou simplesmente “História da Irlanda”, de Seathrún Céitinn):

SIAR, oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine) – Conhecimento e Magia – Caldeirão do Dagda

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloquência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

THUAIDH, norte (província: Ulaid, Ulster; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh) – Batalha e Determinação – Pedra de Fail

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

OITHEAR, leste (província: Laighin, Leinster; fortaleza real: Temuir; festim de Temuir a cada três anos) – Prosperidade e Mudança – Espada de Nuada

Prosperidade, suprimentos, colmeias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

DESS, sul (província: Mumhan, Munster; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain) – Música e Poesia – Lança de Lugh

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

MIDE, centro (província: Mide, Meath)

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

Geralmente, encontramos nos livros que a Taça (e, em consequência, o Caldeirão) localiza-se no oeste. Mas esse Caldeirão é o Caldeirão do Dagda, cuja propriedade característica é que ninguém dele se afaste sem estar saciado. É, portanto, um caldeirão nutridor, denotando abundância, fertilidade e comensalidade, isto é, que as pessoas se reúnam ao redor dele para obter alimento. Os textos irlandeses dizem que o poder do Dagda era a capacidade de controlar o clima, influenciando no desenvolvimento das plantações. Tudo isso combina com as atribuições do leste: prosperidade, suprimentos, etc. Mais adiante na lista, encontramos também “boas maneiras”, um imperativo nas refeições feitas em conjunto. Parece bastante adequado que o Caldeirão da Abundância fique no leste, a direção da Prosperidade, não no oeste.

Vamos olhar as atribuições do oeste. “Sabedoria, alicerce, julgamento, eloquência, generosidade, riqueza”: esses são os atributos do REI céltico. Ele precisa ser sábio para fazer sempre o julgamento correto, pois, se ele pronunciar uma sentença injusta, todo o seu reino pagará por isso. Os animais param de se reproduzir, as árvores não produzem mais frutos, as plantações morrem, os peixes desaparecem dos rios e lagos. A injustiça desperta a indignação da Esposa Divina do rei, a Deusa da Soberania (Fláith Érenn, “Soberania da Irlanda”). Além de justo, o rei precisa de riqueza para ser generoso. Quando lhe pedem um dom, ele tem de concordar em concedê-lo de acordo com a categoria do pretendente, sem mesmo perguntar o que este deseja. É o modo de demonstrar um “desapego” heroico aos bens materiais. Desse modo, a lança da realeza fica melhor no oeste que no sul.

A pedra, que “canta” sob cada rei predestinado, deve ser atribuída à música e ao sul, enquanto a espada do guerreiro deve ficar no norte, cuja atribuição principal é “batalha” – parece que a Irlanda do Norte já tinha problemas na época antiga.
Então, combinando as indicações de “A Segunda Batalha de Magh Tuireadh” (que enumera os Quatro Tesouros, as Cidades, os Mestres e os Deuses) e de “A Fundação do Domínio de Temuir” (que dá as atribuições direcionais), é possível fazer as seguintes relações:

SABEDORIA – oeste – terra (talam) – lança (gae) – cidade: Goria (de gor, calor moderado, incubação) – mestre: Esras (“Passagem”) – Soberania sacerdotal e guerreira – Lug

BATALHA – norte – ar (aer) – espada (claideb) – cidade: Findias (de find, branco, brilhante) – mestre: Uscias (“Água Fresca”) – Realeza – Nuada

PROSPERIDADE – leste – água (dobur) – caldeirão (coire) – cidade: Muirias (de muir, mar) – mestre: Semias (“Sutil”) – Abundância, Ressurreição, Regeneração – O Dagda

MÚSICA – sul – fogo (teine) – pedra (lía) – cidade: Falias (de fail, destino; nome simbólico da Irlanda: Inis Fail, Innisfal, “Ilha do Destino”) – mestre: Morfesa (“Grande Ciência”) – Todos os aspectos da Soberania – Bem indivisível de todos os Deuses

REALEZA – centro – éter/névoa (ceó) – Vazio/Plenitude – Expressa a precipitação dos quatro elementos em seu movimento e transformação.