O Touro e o Cervo

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Em irlandês antigo, a palavra para boi e cervo era a mesma, dam (< *damos). O boi inteiro, destinado à reprodução do rebanho (tarb, touro, < *taru̯os), era no mundo da atividade humana um dos mais importantes símbolos de força e vigor. Numa sociedade em que a riqueza media-se pelas cabeças de gado, o touro pujante garantiria a fortuna de seu proprietário. Na floresta, o cervo (chamado boi selvagem, damh allaidh em gaélico escocês, < *damos allatis), com a galhada que se renova anualmente, cumpre em sua manada a mesma função do touro. Este pertence à clareira, o espaço onde tipicamente se desenrola a vida do homem em sociedade, ao passo que o cervo corria livre nas brenhas sombrias onde o homem somente entrava para caçar, colher ou esconder-se.

Touro e Cervo representam a soberania de seus mundos. O Touro, do mundo humano aculturado e delimitado. O Cervo, do mundo selvagem, desconhecido e imprevisível, sujeito a leis apartadas da moralidade humana. A ambos o Deus Galhudo alimenta. Seus chifres servem de suporte a um monte triangular, simultaneamente a primeira terra a emergir do oceano primordial e pilha de cinzas sepulcrais.

Um rato perfurou-a e olha com gula para as sementes que o Galhudo oferece ao Touro e ao Cervo. O Rato representa todas as forças que roubam a Vida e seus recursos, sejam estes alimento, disposição, entusiasmo ou coragem. O Rato cobiça a alma das coisas e tudo o que é por ele tocado perece ou fica impuro.

As sementes são as almas de todas as vidas que o Galhudo, em seu domínio escuro sob a montanha primordial, recebe do mundo acima, da floresta e do céu sobre a montanha, e devolve aos dois Reis num ciclo sem fim. O Galhudo é o Regenerador e o Ancestral.

Mas e a Alma, que é a Alma-semente? A Alma é aquilo que as aves levam ao Céu, é a filha da Escuridão, corajosa diante de todo perigo (pois não teme deixar o reino dos vivos). A Alma nasce no reino da Escuridão e é lançada ao reino da Vida, engolida pelo Touro ou pelo Cervo; sabe que a vida é estado passageiro durante o qual se afasta do grande ventre para cumprir um propósito conforme os três preceitos: honrar os Deuses, não fazer o mal, praticar a bravura.

As almas dos homens, assim como o Universo, são indestrutíveis. São ambos indestrutíveis, a Alma bem como o Universo, pois a Alma é como o resto da criação,  dele não difere.

A alma é a essência da vida do homem; mas, se o corpo do homem pode ser destruído, que é então essa Alma que resiste? A carne do homem volta ao domínio da Escuridão. A marca que ele deixou no quadro maior da Vida, contudo, para sempre permanece.

O homem é Vida; a Vida sobrevive à aniquilação de corpos individuais, continuamente se renovando para chegar mais longe no tempo e no espaço, atingindo o mais fundo de Dubnos e o mais alto de Albii̯os. Nesse sentido, a vida do homem é indestrutível.

Apenas no fim o Galhudo interromperá seu trabalho de regeneração, quando o fogo e a água reinarem.

Bellou̯esus /|\

Aceito ou recusado?

lughEsta consulta cleromântica tem por finalidade oferecer uma resposta (dentro do contexto de um rito maior) quanto à aceitação ou rejeição de uma oferenda aos Dēu̯oi, limitando-a às possibilidades mais simples: “sim” ou “não”.

Quatro deidades estão envolvidas no procedimento: Lugus, Tou̯iđđākos Sentuu̯on Ollon (Lugus, Guia de Todos os Caminhos), Brigindū Dubus (Brigindū Negra), Brigindū Klou̯odānus (Brigindū Famosa por seu Dom), Brigindū Keros (Brigindū Sorveira).

Os elementos necessários são:

a) o fogo, que representa a presença dos Dēu̯oi;
b) uma pedra de cor clara;
c) uma pedra de cor escura;
d) um pequeno vaso de cerâmica, metal ou madeira para as pedras;
e) um recipiente de cerâmica, metal ou madeira com água limpa aonde as pedras serão lançadas;
f) pequenas quantidades de vinho e mel para libações em vasilhames adequados.

Comece o lītus com a recitação das u̯edi̯ās aos Dēu̯oi diante do noibon :

Lugus, Tou̯iđđāke ā Sentuu̯on Ollon,
Tankos toi bii̯etū, MāroDēu̯e.

Lugus, ó Guia de Todos os Caminhos,
A paz esteja contigo, Grande Deus.

Verta no noibon uma libação de vinho para Lugus.

Brigindū ā Dubus, Brigindū ā Klou̯odānus, Brigindū ā Kēre,
Tankos su̯ūs bii̯etū ollābo, NoiboDēu̯itatis.

Brigindū Negra, Brigindū Famosa por seu Dom, Brigindū Sorveira,
A paz esteja com todas vós, Santas Deidades.

Verta no noibon uma libação de mel para cada uma das Brigindones.

Dīmoiu̯etete, su̯ūs arkii̯ū, an esāt soadbertā kombritā?

Dizei-me, eu vos peço, esta oferenda foi aceita?

Agite as pedras três vezes dentro do vaso. Lance-as ao recipiente com água. O lado favorável é o direito. Se neste cair a pedra clara, o seu sacrifício terá sido aceito. Porém, se ali cair a pedra escura, o seu sacrifício terá sido recusado.

Bellou̯esus /|\

Analisar (ou criar) “voces magicae”

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Como se pode supor, as voces magicae (“palavras mágicas”) dos antigos grimórios não são sempre apenas “nomes bárbaros”, como disse Iamblichus, mas podem ser pantáculos sonoros criados com intento específico e segundo uma técnica precisa.

Sem aprofundar o assunto, vamos indicar como esses nomes podem ser interpretados ou mesmo formados para atender a uma necessidade particular.

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Com a informação dessas tabelas, podemos decompor uma das palavras mágicas mais conhecidas, tão comum que faz parte da linguagem cotidiana: a velha “Abracadabra”, usada em tempos passados como amuleto medicinal, fórmula sagrada dos gnósticos basilidianos e hoje rebaixada a encantamento de prestidigitadores.

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“A” é a única vogal presente. Pertence à Lua, portanto “abracadabra” tem um caráter lunar, indicando basicamente as reações emocionais, instintos e sentimentos. Seu propósito é influenciar no íntimo, indo além de fatores ditos racionais.

AB/BA: Lua em ÁriesIntensidade: rompantes súbitos de alegria ou de raiva. Sentimentos muito vivos que não se podem ocultar.

RA/AR: Lua em CapricórnioCautela: seriedade, fidelidade, responsabilidade, extremo autocontrole emocional. Frieza. A Lua está em detrimento nesta casa.

KA/AK: Lua em LeãoAutoconfiança: desejo por elogios e destaque, desde que merecido. Somente aceita reconhecimento pelo valor que sabe possuir.

DA/AD: Lua em GêmeosRacionalização: emoções bem definidas com limites que não serão ultrapassados. Sentimentos firmes, mas discretos. Detesta incerteza.

AB/BA: Lua em ÁriesIntensidade: rompantes súbitos de alegria ou de raiva. Sentimentos muito vivos que não se podem ocultar.

RA/AR: Lua em CapricórnioCautela: seriedade, fidelidade, responsabilidade, extremo autocontrole emocional. Frieza. A Lua está em detrimento nesta casa.

Bellou̯esus /|\

Todas as coisas estão cheias de deuses

Broceliande Forest. Brittany, France.

O Liber Ar(d)machanus (“Livro de Armagh”), também conhecido como Canoin Phatraic (“Cânon de Patrício”), é um manuscrito irlandês do séc. IX que contém textos em irlandês antigo e latim. Um desses textos chama-se Collectanea (“Coleções”), de autoria do bispo Tírechán (séc. VII), em que se narra a vida do bispo Patrício. Nesse texto, a palavra irlandesa síde é traduzida pelo latim dei terreni, “deuses da terra”, pois se contava que residiam em palácios subterrâneos, ocultos nas profundezas de colinas encantadas (também ditas síde, de onde receberam o nome).

Mas não apenas nas entranhas da terra habitavam os deuses da Irlanda, pois a Vita tripartita Sancti Patricii registra o nome da divindade Cenn Cruaich, correspondente ao topônimo galês Penn Cruc (Pennocrucium em latim, agora Pen-y-crug), “Cabeça/Chefe da Montanha”. Há também as colinas gêmeas conhecidas como Da Chich Anand/Dá Chích Anann, “Dois Seios de Anu”, em Kerry; a “Montanha da  Cailleach”, Sliabh na Cailleach, na verdade uma série de colinas, localiza-se em Meath, antigo centro cerimonial da Irlanda.

Nesse aspecto, a ligação das deidades à geografia não é nenhuma inovação irlandesa. Antes dos registros irlandeses, feitos na Idade Média, já as culturas célticas do continente europeu veneravam principalmente divindades tópicas (isto é, ligadas a um local determinado) ou regionais, com destaque para os lugares elevados, os picos dos montes.

O pico do Ger (Garrus deus), nos Baixos Pireneus, permaneceu como ente divino até o fim da dominação romana, enquanto outras montanhas desceram pouco a pouco da posição de deuses para a de moradas de deuses. Por exemplo, Dumias, nome do deus tutelar de Puy de Dôme, acabou por tornar-se um simples epíteto ligado a Mercúrio, cujo templo e estátua localizavam-se nesse cume.

No entanto, a religião praticada pelos celtas continentais, considerando-se o testemunho gaulês, dava maior ênfase ao culto das águas (rios, poços, fontes). Diua, Deua, Diuona, “a Divina” era uma designação frequente dos rios gauleses que ainda permanece em nomes atuais: Dive, Divone, Deheune. Nemausus, deus tutelar da cidade de Nîmes, era o gênio de sua fonte; Icaunus, o de Yonne etc. Numerosos eram os gauleses da Bélgica que se orgulhavam do nome Rhenogenus, “filho do Reno”. Boruo, Bormo ou Bormanus (“o Borbulhante”), deus das fontes termais, deu seu nome a muitas estações termais na atual França: La Bourboule, Bourbonne, Bourbon-Lancy ou L’Archambault.

Ligado de perto à sacralidade das águas, estava o culto das árvores e  florestas. Vosegus foi o deus tutelar dos Vosges silvestres; Arduina, a deusa das Ardennes; Abnoba, a da Floresta Negra. Na região dos Pireneus, muitas inscrições latinas dão-nos a conhecer os deuses-árvores: Robur (Carvalho-Branco), Fagus (Faia), Tres Arbores (Três Árvores), Sex Arbores (Seis Árvores), Abellio (Macieira), Buxenus (Buxo). Árvores sagradas, bosques habitados pelas divindades de sua própria flora, templos naturais que o conquistador romano lembrava-se de derrubar para quebrar a resistência gaulesa.

Um eco distante da veneração arbórea aparecerá na hierarquia das árvores registrada pelo Auraicept na n-Éces e confirmada pelos tratados jurídicos (com a imposição de multas crescentes conforme a classe da árvore ilegalmente derrubada):

Asberat immorro araile co nach o dhainibh itir ainmnighter fedha inn n-ogaim isin Gaedhelg acht o chrandaibh gen gu haichinter anniu araile crand dibh. Air atat ceithiri hernaile for crandaib .i. airigh fedha 7 athaig fedha 7 lossa fedha 7 fodhla fedha; 7 is uaithibh sin a ceathrur ainmnighter fedha in oghaim. Airigh fedha quidem .i. dur, coll, cuileand, abhull, uindsiu, ibur, gius. Athaig fedha .i. fern, sail, bethi, lemh, sce, crithach, caerthand. Fodla fedha andso .i. draighen, trom, feorus, crand fir, fedlend, fidhat, finncholl. Lossa fedha .i. aitean, fraech, gilcach, raid, lecla .i. luachair 7rl.

“Outros, porém, dizem que não de homens as vogais ogâmicas foram em gaélico nomeadas, mas de árvores, embora algumas dessas árvores não sejam hoje conhecidas. Pois há quatro classes de árvores, a saber, árvores chefes tribais [airigh fedha] e árvores camponesas [athaig fedha] e árvores arbustos [lossa fedha] e árvores ervas [fodhla fedha] e é dessas quatro [classes] que as vogais ogâmicas recebem seus nomes. As árvores chefes tribais certamente [quidem] são o carvalho [dur], a aveleira [coll], o azevinho [cuileand], a macieira [abhull], o freixo [uindsiu], o teixo [ibur], o abeto/pinheiro [fir]. Árvores camponesas, a saber, o amieiro [fern], o salgueiro [sail], a bétula [bethi], o olmo/ulmo [lemh], o evônimo [sce], o álamo/choupo [crithach], a tramazeira [caerthand]. As árvores arbustos aqui, a saber, o espinheiro-negro [draighen], o sabugueiro [trom], o evônimo [feorus], o choupo-tremedor [crand fir], a madressilva [fedlend], o pado [fidhat], a aveleira-branca [finncholl]. As árvores ervas, a saber, o tojo [aitean], a urze [fraech], o caniço [gilcach], o mirto [raid], lecla [?], juncos (?) [luachair] etc”.

A veneração do carvalho é profusamente conhecida e dispensa elaboração. Basta lembrar que, no dizer de Máximo de Tiro, o Zeus gaulês (ou seja, Taranis), era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”). O Senhor do Céu era venerado como árvore, não em forma humana.

Os celtas inevitavelmente perceberiam as importantes qualidades de numerosas espécies animais, fossem domesticadas ou silvestres, nelas reconhecendo caráter tutelar ou divino. Podem-se citar: Epona, a Égua, Mãe Primordial; Damona, a Vaca; Taru̯os, o Touro (no topônimo Taruisium, hoje Treviso; no antropônimo Deiotaros, rei gálata; Taurisci, “Tribo do Touro”); Lugus, o Corvo (é uma interpretação possível, Lugudunum seria assim a “Fortaleza do Corvo”); Brannovices (“os que vencem pelo Corvo”); Eburones (“Tribo do Javali/Teixo”); Artio, a Ursa, venerada pelos helvécios da região de Berna; Cernunnos, o deus com galhadas de cervo, e tantos outros.

Toda essa informação leva-me a concluir que os deuses dos celtas continentais (conhecidos pela iconografia e menções em autores clássicos) e insulares (desprovidos de iconografia, mas com fontes literárias relativamente abundantes, embora tardias) eram – digo-o contra a minha preferência pessoal – concretos, visíveis, presentes aqui e agora. Não o deus da montanha, mas a montanha que é o deus; não a deusa da floresta, mas a floresta que é uma divindade; rios e fontes são os corpos líquidos de divindades, entes dotados de poder e inteligência, passíveis de emoção e que podem ser aproximados. Sol e vento são divindades que tocam o rosto; a terra, um nume terrível que pode assumir todos os humores imagináveis.

Os mesmos irlandeses, que ocasionalmente conservaram traços mais antigos que seus primos continentais, fornecem indicações da vitalidade, vontade, consciência e poder dos elementos que compõem a paisagem onde se desenrolam as nossas vidas: Grían ocus Esca, Usci ocus Áer, Lá ocus Adaig, Múir ocus Tír (“Sol e Lua, Água e Ar, Dia e Noite, Mar e Terra”) foram os poderes que o rei Loegaire invocou como garantes de suas promessas ao ser feito cativo pelos homens de Leinster; Cúchullain pronuncia um encantamento contra Medb: Adeocho-sa inna h-usci do chongnam frinn: ateoch Nem ocus Talmuin ocus Cruinn intrainrethaig. Gaibid crón-choidech friu: nisleicfe muirthimiu, corroirc monar Féne is int sléib túath Ocháine! (“Invoco o Céu e a Terra e o rio Cronn especialmente. Que duramente batalheis contra eles: possa o mar de ondas abundantes não os abandonar até que o esforço dos Féne esmague-os ao norte da montanha de Ochaine!”).

Para essa percepção do Sagrado, o mundo está vivo e consciente, saturado de Presença, “todas as coisas estão cheias de deuses”. Não somos os donos desta Terra, tampouco os primeiros a castigá-la com nosso peso; é como empréstimo que a ocupamos, geração após geração de homens mortais. Somos hóspedes que podem ser despachados se nos tornarmos excessivamente molestos.

Bellou̯esus /|\

Druidas Gauleses x Druidas Irlandeses: Semelhanças e Diferenças

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Principais pontos em comum

1. Tinham o mesmo nome céltico nas duas regiões: “druida”.

1.1 Não existe registro da forma gaulesa.
1.1 Os textos gregos oferecem somente o plural δρουιδας (druidas).
1.2 Em latim, o nome somente aparece em formas do plural: druides, druidum, druidibus.
1.3 Em gaulês reconstituído, o singular seria *druu̯iđ, plural druu̯ides.
1.4 Irlandês antigo drui, plural druid.

2. Dominavam técnicas mágicas e divinatórias.

3. Exerciam as funções de árbitros em questões legais, professores e mantenedores das tradições.

4. Encarregam-se especialmente da educação dos filhos de reis e chefes tribais.

5. Seus discípulos passavam por um longo treinamento, durante o qual deveriam memorizar os ensinamentos transmitidos oralmente.

6. Eram os principais conselheiros dos governantes, muito influentes e respeitados, muitas vezes tendo precedência até mesmo sobre os reis.

7. Para a Gália, ocorre em latim uma forma feminina, dryas. Para a Irlanda, os textos oferecem bandrui (“mulher druida”).

8. Oficiavam no culto de vários deuses, existindo proximidade nos nomes e funções entre diversos deuses gauleses e da Irlanda pré-cristã.

Principais pontos divergentes

1. Centralização: segundo os Comentários de César, os druidas gauleses submetiam-se à autoridade de um superior eleito e celebravam concílios periódicos. Não há traços dessa instituição na Irlanda.

2. Imortalidade da alma: o poeta romano Lucano menciona que os druidas gauleses ensinavam a sobrevivência post mortem da alma humana num outro mundo, em um novo corpo. Detalhes hoje perdidos dessa doutrina, ou simplesmente uma simplificação feita pelos gregos, levaram na Antiguidade a uma aproximação entre o pensamento dos druidas e o dos pitagóricos quanto à metempsicose. Não existe evidência textual de que os druidas irlandeses sustentassem a mesma doutrina. Os relatos mitológicos falam de indivíduos excepcionais que experimentaram séries de metamorfoses ou adentraram o Outro Mundo (Saol Éile) sem experimentar a morte.

3. Sacrifício humano: sacrifícios humanos eram ritos para tempos de grande stress coletivo e, assim, realizados com muita seriedade e formalidade, o que exigiria de algum modo a participação dos druidas. E é realmente uma prática que lhes atribuem os escritores da Antiguidade, em particular os romanos. Os druidas irlandeses não sofreram a mesma acusação da parte dos escribas cristãos.

4. Vedação à escrita: os druidas gauleses proibiam que seus ensinamentos fossem confiados à escrita. Não há notícia do mesmo interdito na Irlanda.

5. Árvores sagradas: os druidas gauleses tinham como sagrado o visco (*olloi̯akkon) e o carvalho (*deru̯os) onde este fosse encontrado. Os druidas irlandeses reverenciavam especialmente o quinteto aveleira (coll), teixo (ibar), espinheiro-branco/pilriteiro (scé), sabugueiro (trom) e sorva/sorveira (cáerthann).

O Lebor Gabála Érenn (“Livro da Tomada da Irlanda”/“Livro das Conquistas da Irlanda”) resumido

LGE

Eis o que diz o “Livro das Conquistas” (1).

Banba chegou. Não se sabe de onde veio, mas certos sábios dizem que foi muito antes do grande dilúvio. Trouxe consigo cento e cinquenta donzelas e três homens, dos quais um era Ladra, seu marido. Ficaram por quarenta anos, pereceram de doença. Ériu (2) ficou desabitada por duzentos anos.

Cessair, conforme a tradição, chegou depois dela. Veio do Egito com cinquenta donzelas e três homens, ou seja, Bith, seu pai, Ladra, o piloto e Fintan, que seria seu marido. Foi em Dun na mBarc que aportaram. Alguns dizem que permaneceram por apenas seis dias, mas, segundo outros, foi de quarenta dias a sua permanência. Todos pereceram antes do grande dilúvio, tendo Cessair morrido de tristeza pela morte do seu pai. Também três pescadores vieram da Ibéria, Capa, Luasad e Laigne os seus nomes, trazidos a Ériu por uma tempestade. A beleza do lugar cativou seus corações e decidiram retornar para buscar suas esposas. Voltaram pouco antes do dilúvio e todos afogaram-se em Tuad Inbir. Dizem que Ériu ficou então desabitada por trezentos ou trezentos e doze anos, porém outros afirmam que a desolação durou mil e dois anos.

Partholón veio então da Sicília, embora alguns digam que foi da Grécia, com seus quatro filhos, depois de matar os seus pais. Trouxe uma tropa de trezentos homens. Derrotou Cichol Gricenchos, rei dos Fomoirí, na Batalha de Mag Itha. Em sua época, ocorreu o surgimento de sete lagos e a criação de quatro planícies, pois a formação da bela Ériu ainda não se concluíra. Surgiram a criação do gado, o devido preparo dos alimentos, a fermentação e a destilação de bebidas e a prática de duelos. Sua esposa, Delgnat, cometeu adultério com um servo de nome Topa, que foi morto por Partholón. Foi esse o primeiro adultério de Ériu, mas nem de longe o último. Partholón acabou morrendo por causa dos antigos ferimentos da luta contra os Fomoirí. O povo de Partholón (3) morreu de uma peste, exceto Tuan mac Cairell, na Antiga Planície de Elta de Edar. Alguns dizem que teriam sido expulsos da ilha por macacos com cabeça de cachorro. Sua permanência durou trezentos anos ou quinhentos anos e, depois deles, Ériu ficou desabitada por trinta anos.

Nemed veio da Grécia com seus quatro filhos. Muitos dos seus homens afogaram-se na tentativa de capturar uma torre de ouro no mar. Na sua época, lagos irromperam da terra, planícies foram limpas e fortalezas reais foram construídas. Venceu os Fomoirí em três batalhas. Ele morreu de uma praga que matou dois mil do seu povo. Os Fomoirí aproveitaram o momento de fraqueza e exigiram um imposto de dois terços de todos os produtos e nascimentos, que deveria ser pago a cada Samuin. Então derrotaram Conand mac Febar, rei dos Fomoirí, na sua torre em Toirinis Ceitne. Morc mac Dela vingou essa derrota. Muitos do povo de Nemed (4) afogaram-se com uma grande maré. Trinta sobreviventes fugiram de Ériu. Semeon retornou à Grécia e deu origem aos Fir Bolg. Beothach foi para o norte do mundo, para a Escandinávia, e deu origem às Tuatha Dé Danann. O povo de Partholon permaneceu por quatrocentos anos ou seiscentos e trinta anos ou setecentos e vinte anos ou ainda setecentos e trinta anos, como outros dizem. Depois deles, Ériu ficou desabitada por duzentos ou duzentos e trinta anos.

Os Fir Bolg vieram da Grécia, onde tinham sido escravizados. Três grupos chegaram na mesma semana: Gaileoin, chefes guerreiros; Fir Domnann, escavadores e Fir Bolg, transportadores. Seus cinco chefes dividiram Ériu em cinco províncias. A Gann coube o norte de Mumhan e a Sengann, o sul. Genann tomou Connacht, Rudraige teve o domíno de Ulaidh, enquanto Slánga governou Laighin. Determinaram que haveria um Grande Rei de Ériu, e nove monarcas, isto é, Sláine, Rudraige, Gann e Genann, Sengann mac Dela, Fiacha Cennfinnán, Rinnal, Fodbgen e Eochaid mac Eirc, reinaram até a chegada das Tuatha Dé Danann no décimo ano do rei Eochaid. Foi ele o primeiro a estabelecer um sistema de justiça em Ériu.

As Tuatha Dé Danann vieram do norte do mundo, onde aprenderam o domínio da magia. Quatro anos antes da sua chegada a Ériu (ou sete, segundo outros), Nuadu era o seu rei. Chegaram envoltos em bruma escura ou era a fumaça dos seus navios, que queimaram para não ter a opção de voltar. Trouxeram consigo quatro tesouros, a Pedra de Fál, a lança de Lug, a espada de Nuadu e o caldeirão do Dagda.

O poeta conta a sua espantosa chegada e as virtudes dos tesouros que trouxeram das ilhas do norte do mundo.

Os Quatro Tesouros das Tuatha Dé Danann (5)

Havia quatro cidades em que as Tuatha Dé Danann aprenderam a sabedoria e a magia, pois sabedoria e magia e artes malignas eram-lhes úteis. Estes são os nomes das cidades: Failias e Findias, Goirias e Murias. De Failias foi trazida a Lia Fail, que está em Temuir e que costumava gritar sob cada rei que assumia a soberania da Irlanda. De Gorias foi trazida a espada que pertencia a Nuadu. De Findias foi trazida a lança de Lug. E de Murias foi trazido o caldeirão do Dagda.

Quatro magos estavam nessas cidades. Fessus estava em Failias, Esrus estava em Gorias, Uscias estava em Findias e Semias estava em Murias. Deles, as Tuatha Dé Danann aprenderam sabedoria e ciência. Batalha alguma era sustentada contra a lança de Lug (6) ou contra aquele que a tivesse em sua mão. Ninguém escapava da espada de Nuadu (7) depois de ser ferido por ela e, quando ela era retirada de sua bainha guerreira, ninguém podia resistir contra aquele que a tivesse em sua mão.

Jamais uma reunião de convidados partiu insatisfeita do caldeirão do Dagda (8). E a Pedra de Fál (9), que está em Temuir, jamais falou senão sob um rei de Ériu.

Alguns dos historiadores, não há dúvida, dizem que as Tuatha Dé Danann chegaram a Ériu numa nuvem de bruma. Mas isso não foi assim, pois eles chegaram numa grande frota de navios e, depois de chegar a Ériu, queimaram todas as suas naus. E, pela nuvem de fumaça que deles subiu, disseram alguns que eles chegaram numa nuvem de bruma. Isso, no entanto, não é verdadeiro, pois estas são as razões pelas quais queimaram seus barcos: para que a raça dos Fomoiri não os pudesse encontrar com o fito de saqueá-los e para que Lug não pudesse vir a fim de lutar contra Nuadu pela soberania. A respeito deles os antiquários compuseram esta canção:

As Tuatha Dé Danann dos tesouros preciosos,
Onde encontraram a ciência?
Chegaram em perfeita sabedoria
Em feitiçaria, artes malignas.

Brilhante Iardanel, um profeta de excelência,
De Nemed filho, filho de Agnoman,
Teve como tolo descendente o ativo Beothach,
Que um herói foi na destruição, pleno de maravilhas.

Os filhos de Beothach – longa a vida de sua fama -,
A multidão chegou dos valentes guerreiros
Depois do pesar e após grande tristeza
A Lochlann com seus rebentos todos.

Quatro cidades – justo seu renome –
Em agitação contemplaram com grande força.
Por esse motivo apaixonadamente competiram
Para aprender sua genuína sabedoria.

Failias e Gorias brilhante
Findias, Muirias de grande bravura,
Fora da qual batalhas foram vencidas,
Das principais cidades os nomes.

Morfis e o nobre Esrus,
Uscias e Semiath, sempre aterrador,
Nomeá-los – um discurso necessário –
Os nomes dos sábios de nobre sabedoria.

Morfis, o poeta da própria Failias,
Em Gorias, Esrus dos desejos intensos,
Semiath em Murias, dos pináculos a fortaleza,
Uscias, o justo vidente de Findias.

Quatro presentes de lá com eles
Pelos nobres das Tuatha Dé Danann:
Uma espada, uma pedra, um caldeirão de qualidade,
Uma lança para a morte dos grandes campeões.

De Failias para cá a Lia Fail
Que gritava sob os reis da Irlanda.
A espada na mão do ágil Lug
De Gorias – uma escolha de riquezas vastas.

De Findias distante sobre o mar
Trazida foi a lança mortal de Nuadu.
Um grande e poderoso tesouro de Murias,
O caldeirão do Dagda de feitos elevados.

O Rei do Céu, o Rei dos frágeis homens,
Que ele me proteja, o Rei das regiões reais,
O Ser em quem está a permanência dos espectros
E da raça gentil a força.

Tuatha Dé Danann.

As Tuatha Dé derrotaram os Fir Bolg na Batalha de Magh Tuireadh do sul, travada em Cong, mas pesadas foram as suas perdas, pois ali caíram Tuirill Biccreo, Fiachra, Ectach, Etargal e o rei Nuadu teve seu braço decepado. A realeza foi então concedida a Bres, filho de Elatha, dos Fomoirí, e de Eri, filha de Delbaeth, filho de Oengus, filho do Dagda, pois o corpo do rei não poderia ter qualquer imperfeição. Bres reinou por sete anos e o braço de Nuadu foi curado por Dian Cécht, o médico, que o substituiu por um membro de prata. Bres mostrou-se um soberano mesquinho e foi por isso deposto, porém chamou os Fomoirí, seus parentes pelo lado paterno, para apoiá-lo contra as Tuatha Dé, dando causa à Batalha de Magh Tuireadh do norte vinte e sete anos depois da chegada das Tuatha. Os Fomoirí foram derrotados, porém Macha, Ogma, Bress, Bruidne e Casmael também caíram nesse combate. Lug determinou a celebração do Lugnasad em Tailtin para celebrar Tailltiu, sua mãe adotiva, esposa de Eochaid mac Eirc, último Grande Rei de Ériu da linhagem dos Fir Bolg. Lug assumiu a realeza por quarenta anos. Pela morte de seu pai, Cian, ele exigiu a entrega de sete itens mágicos aos filhos de Tuirenn, ou seja, Brian, Iuchar e Iucharba. Brigit nessa época possuía animais mágicos que assoviavam, gritavam e gemiam sempre que ocorresse pilhagem em Ériu. A realeza passou então ao Dagda, que reinou por oitenta anos, e foi sucedido por Delbaeth, seu neto, que reinou por dez anos, e foi sucedido por Fiacha, seu filho. Alguns dizem que Fiacha matou Delbaeth. Seja como for, Fiacha foi Grande Rei por dez anos. Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Gréine, netos do Dadga, então ocuparam o trono, cada um pelo espaço de um ano alternadamente, durante vinte e nove ou trinta anos. E o tempo do domínio das Tuatha Dé Danann sobre Ériu foi de cento e noventa e seis ou cento e noventa e sete anos.

Íth avistou Ériu do alto da Torre de Breogan na Espanha e decidiu navegar para lá. Ele ajudou Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Gréine a resolver uma disputa e elogiou a ilha, porém os reis, temendo que Íth fosse um espião, mataram-no. Foi para vingar essa morte que os Filhos de Míl (10) viajaram a Ériu. Mil, Oige, Uige, Erannan, Scene e Ir morreram no trajeto. A terra estava disfarçada como o lombo de um porco. Loch Luigdech brotou ao desembarcarem. Combateram contra as Tuatha Dé Danann em Sliabh Mis e depois junto ao rio Life. Encontraram-se com as rainhas Banba, Fotla e Ériu para fazer um acordo sobre o nome da terra. Em Temair, concederam uma trégua de três dias a Mac Cuill, Mac Cecht e Mac Gréine e voltaram para seus navios, onde enfrentaram tempestades mágicas conjuradas pelos druidas das Tuatha Dé. Éber Donn afogou-se depois de entoar um encantamento para sobrepujar a magia dos druidas inimigos. Os reis das Tuatha Dé e suas rainhas foram finalmente mortos por Éber Finn, Érimón e Amairgen na Batalha de Tailtiu. Amairgen então dividiu a realeza entre seus irmãos: Érimón governaria o norte da ilha e Éber Finn, o sul. Um ano depois, Érimón combateu e matou Éber, tornando-se Grande Rei sozinho. Lagos continuaram a surgir, outras fortalezas foram construídas, ocorreram novas batalhas contra os Fomoirí. Por meio de batalhas, a realeza alternou-se entre as linhagens de Érimón e Éber até a época de Tigernmas, tataraneto de Érimón. Houve batalhas contra os Fir Bolg nos dias de Tigernmas. Foi em seu reinado que teve início a fundição de ouro e a produção de roupas coloridas. Crom Cruach era o seu deus e ele morreu, juntamente com dois terços dos seus homens, quando adorava Crom numa celebração de Samuin em Magh Slécht.

Eochaid Étgudach foi escolhido para reinar após a morte de Tigernmas. Cermna Finn, bisneto de Mil, matou-o em batalha e ocupou a realeza juntamente com Sobairce, seu irmão. Eochaid Menn, filho do rei dos Fomoirí, matou Sobairce e Cermna caiu pouco depois pelas mãos de Eochaid Faebar Glas. A benção da morte no travesseiro foi desconhecida para os reis da estirpe de Mil até a epoca de Eochaid Ollom Fotla, filho de Fíachu Fínscothach. Foi Ollom Fotla quem instituiu Feis Temrach, a Assembleia de Temuir, para que, na véspera do Samuin a cada três anos, os nobres, sábios e generais de Ériu se congregassem em Temuir para decretar e renovar leis e tratados, aprovar os anais e registros históricos. Três dias de festejos, conforme o costume, precederiam e sucederiam a nobre Assembleia de Temuir.

Eis que quando Conaing Bececlach era o Grande Rei de Ériu, as multidões estavam reunidas em Temuir para a Assembleia ordenada pelo rei Ollom Fotla e algo mirífico conteceu. Com os olhos cravados no horizonte, todos viram que um grande herói, belo e poderoso, aproximava-se do oeste, da direção do pôr-do-sol. Maravilharam-se grandemente com a magnitude de sua forma. Tão alto quanto uma árvore era o topo de seus ombros, o céu e o sol visíveis entre suas pernas em razão do seu tamanho e beleza. Um véu de brilhante cristal sobre ele, como uma veste de linho precioso. Sandálias em seus pés e não se sabe de que material eram. Cabelo amarelo-dourado caindo em cachos até a altura de suas coxas. Tábuas de pedra na sua mão esquerda, um ramo com três frutos em sua mão direita e eram estes os frutos que nele estavam, nozes e maçãs e bolotas do mês de maio: e não maduro estava cada fruto. Com passos largos ele caminhou para trás da multidão, ao redor da assembleia, com seu ramo dourado de muitas cores de madeira do Líbano atrás de si e um dos homens, armado de grande coragem, disse-lhe: “Vem aqui e conversa com o rei Conaing Bececlach”. Ele respondeu e disse: “Que desejais de mim?” “Saber de onde vieste”, disseram eles, “e para onde vais e quais são teu nome e sobrenome”. “Sem dúvida eu vim”, disse ele, “do pôr-do-sol e estou indo para o nascer-do-sol e meu nome é Trefuilngid Tre-eochair”. “Porque te foi dado esse nome?”, disseram eles. “Fácil dizer”, disse ele. “Porque sou eu quem provoca o nascer-do-sol e o seu poente”.

Notas

1) Lebor Gabála Érenn (“Livro da Tomada da Irlanda”/“Livro das Conquistas da Irlanda”); irlandês antigo gabál (moderno gabhail) > proto-céltico *gabaglâ; cf. galês gafael > substantivo verbal de gaibid > proto-céltico *gabyeti (“pegar, segurar”).

2) É o nome da Irlanda em irlandês antigo (Sengoídelc).

3) Muintir Partholóin.

4) Muintir Nemid.

5) Tuath De Danand na Set soim.

6) Sleg Loga.

7) Claidheb Nuadad.

8) Coiri in Dagda.

9) Lia Fail.

10) Meicc Miled.

Bellou̯esus Īsarnos

Lebor Dallain
O Livro de Dallan

Volume II

Cuíg Cuígí Éirenn
Os Cinco Quintos da Irlanda

Três Armas

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Clareza de propósito, persistência no esforço e capacidade de aprender são as três chaves para alcançar sucesso na magia (ou em qualquer outra atividade).

A clareza de propósito é o produto da imaginação no Sol, pois o objetivo a ser buscado e os passos a ser tomados devem ser imaginados antes de ser alcançados. A disciplina do Sol é o estudo mágico, que se torna valioso dentro do contexto de uma prática regular, assim como a prática mágica obtém profundidade e efetividade quando ocorre dentro de um contexto de estudo.

A persistência no esforço é o produto da vontade em Marte. A disciplina de Marte é a rotina. Adequadamente usado, o hábito torna-se um apoio da vontade e dificuldades que a vontade sozinha não consegue vencer podem comumente ser ultrapassadas com a ajuda do hábito automatizado.

A capacidade de aprender vem da memória em Júpiter. A disciplina de Júpiter é o registro do trabalho. O diário mágico suplementa a memória do mesmo modo que a rotina fortalece a vontade e o estudo auxilia a imaginação.

As três ferramentas do treinamento, ou seja, Imaginação, Rotina e Registro, são armas contra o Guardião do Limiar.

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Lithau Máthir

Lithau Máthir

Lithau Máthir, comnerth gwó mó dháthráieth, o clithisí ti mi en lathíúé-sin cuth. O gwórethísí ti mi sá in hardhu gwer tó dhághul gwóréthi aldhoné gwer shenthu ichís. O amchwerísí in rhunchwidhé mó gaman, Lithau Máthir, comnerth gwó mó dháthráieth.

Canchwerthú au chwédhl tar
Jean Pagano Guthwáther

Mãe Terra, firme sob os meus pés, apoia-me nestes dias difíceis. Ajuda-me a erguer-me alto sobre os teus ombros para ajudar outros no seu caminho. Que as virtudes me guiem no meu percurso, Mãe Terra, firme sob os meus pés.

Adaptado de uma oração do
Sacerdote Jean Pagano

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Nam studere seruire Deo est

Et scias quod ipse Deus est factor et creator totius mundi omniumque rerum existencium in ipso et quod iste mundus et omnia in ipso existencia ab ipso altissimo sunt creata. Et ratio huius est nimis profunda et fortis ad comprehendendum; et id quod ex ea comprehendi potest cum studio et sciencia habetur. Et hoc est maximum donum quod ipse Deus hominibus dedit, ut studeant scire et cognoscere. Nam studere seruire Deo est. Et nota quod scire tres proprietates habet, quarum prima est quod semper acquirit et numquam minuit, secunda quod semper eleuatur et numquam degradatur, tercia quod semper apparet et numquam se abscondit. Item habet tres fortitudines. quarum prima est quod facit despicere res huius mundi, secunda quod acquirit bonos mores. tercia quod non addiscit nisi quod ipse uult et diligit, et illud inquirit cum racione et uoluntate.

Deves também saber que Deus é realmente o modelador e criador de todo o mundo e tudo o que neste existe, e que este mundo e tudo nele foram criados do alto. No entanto, a mente de Deus é profunda e potente demais para ser compreendida, e o pouco que dela se pode compreender pode ser apreendido apenas através do estudo e do conhecimento. Esse é o maior presente que Deus deu à humanidade para busquem conhecer e entender. Estudar, portanto, é servir a Deus. Observa também que o conhecimento tem três características, a primeira das quais é o que sempre aumenta e nunca diminui; a segunda, que sempre eleva-se e nunca se degrada; a terceira, que sempre se mostra e nunca se esconde. Também possui três poderes. O primeiro é que faz desprezar as coisas deste mundo; o segundo, que promove hábitos virtuosos; o terceiro, que não cresce, a menos que o conhecedor assim o deseje e nele se regozije e busque-o com a razão e a vontade.

Maslama b. Qasim al-Qurtubi (?), Ghāyat al-Ḥakīm (“O Objetivo do Sábio”), séc. X/XI EC, traduzido em latim no séc. XIII EC por ordem do rei Afonso X, o Sábio, sob o título “Picatrix”, Livro I, 20-30.

Nam studere seruire Deo est.
Nam studere seruire Deo est.
Nam studere seruire Deo est.

Estudar, portanto, é servir a Deus.

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Eterno x Perpétuo

Os helenos faziam uma distinção (muito justa e bela, aliás) entre αϊδιον (áidion), o perpétuo, e αιωνιον (aiônion), o eterno. Comentando o tratado de Aristóteles sobre a meteorologia, Olimpiodoro explicou a diferença: “O eterno é um agora total, livre dos ciclos cronológicos passados e futuros, existindo por inteiro num agora permanente; o perpétuo, contudo, sempre subsiste, mas pode-se contemplá-lo nas três partes do tempo, o passado, o presente e o futuro. E por isso chamamos eterna à Divindade, em razão de estar desligada do tempo, mas não a chamamos perpétua porque não subsiste no tempo”.

Deus não foi e não será, mas é. Os verbos da Divindade conjugam-se apenas no presente, o agora eterno. Tudo o mais existe dentro do tempo, que nada é além de um recorte da Eternidade.

Nós, humanidade, não somos eternos. Talvez sejamos persistentes e resilientes – quiçá meramente teimosos -, porém não existimos no agora da Divindade nem física e menos ainda emocionalmente, o que resolveria boa parte das nossas ansiedades. Vivemos no presente, assombrados pelo passado e temerosos do futuro. É audácia enorme e descarada arrogância pretender a eternidade para qualquer das nossas criações, invenções e elocubrações. Qualquer delas. Tudo o que fizermos terá nascido ou nascerá dentro do tempo e será tocado pelo tempo, pois a vida que nos foi dada é de natureza temporal.

Pessoas, ideias e práticas surgem, desenvolvem-se, morrem, retornam, mudam enquanto a Divindade mexe o caldeirão da existência. Coisas morrem, coisas renovam-se, novas coisas surgem. Olhe com carinho as cinzas do passado, se forem cinzas o que tiver restado, e respeite-as como as de um ancestral cuja memória mereça ser conhecida e celebrada. E não esqueça de cuidar do fogo novo e dos brotos verdes que despontam nos galhos firmes. Essa é a ordem dentro do ciclo perpétuo (não eterno) que nos foi dado. Mudança é a Lei. Mudança sob Consciência.

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