Moí coire coir goiriath

3caldeiroes

Moí Coire Coir Goiriath

O Caldeirão da Poesia

Atribuído a Amhairghin Glúingeal

Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amhairghin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema (datado do começo do séc. VIII, para as partes em verso, e do séc. X, para as partes em prosa, em razão de certas formas gramaticais) recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que do âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amhairghin Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
No masculino, no feminino e no neutro, os sinais das letras duplas, vogais longas e vogais breves,
O modo pelo qual se declara a natureza do meu caldeirão*.

* […] para Eber Donn, criação de temível poesia, / de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente, […]: o texto foi composto para Eber e Donn, irmãos do druida Amhairghin. Eber foi um dos reis dos Mac Miledh e Donn, tendo sido o primeiro humano a morrer na Irlanda, tornou-se uma divindade tutelar dos mortos, recebendo os descendentes de Mil na Teach Duinn (“Casa de Donn”) depois da morte. Comumente, diz-se que a “Casa de Donn” localiza-se num rochedo do mesmo nome em algum lugar no mar a sudoeste da Irlanda.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia, e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa*.

* Onde se encontra a raiz da poesia: na alma ou no corpo? “Na alma, pois sem esta nada pode o corpo”. Essa parece ser a atitude dos clérigos que formavam a elite cultural irlandesa após a cristianização. “No corpo, pois é herdada dos ancestrais”. Essa parece ser a atitude das classes instruídas nativas, que colocavam grande ênfase na necessidade de que o pai e o avô tivessem sido filí para que um indivíduo pudesse ser considerado file ele próprio. O autor do texto não contradiz um ponto de vista nem o outro, apresentando um terceiro, isto é, afirmando que o potencial existe em cada um, mas realiza-se apenas em uns poucos. O objetivo do autor, ao propor um modelo – como se verá – tão complexo quanto o dos três caldeirões talvez tenha sido superar o conflito entre a posição eclesiástica e a dos nativos, abrangendo três categorias de pessoas: o clérigo instruído, a pessoa versada na tradição nativa e um terceiro grupo, que poderia ser identificado ao amador talentoso. A metáfora do caldeirão, com os seus extremos de Aquecimento e Sabedoria, tendo a transição no Caldeirão do Movimento, ilustraria os vários níveis e tipos de conhecimento (especialmente gramática, métrica e escrita), cujos graus de competência seriam indicados pela posição de cada caldeirão.

Caite didiu bunad ind archetail 7 cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath 7 coire érmai 7 coire sois.

Que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo*. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude*/**.

* A posição em pé de Coire Goiriath no começo da vida representa um caso ideal, o do indivíduo que atinge o grau mais alto de instrução. Tal pessoa necessita que o seu Caldeirão do Aquecimento esteja em pé desde o princípio. Outrossim, a passagem anterior que diz dath nád inonn airlethar Día do cach dóen (“Deus não concede a todos a mesma sabedoria”) refere-se aos graus mais baixos dos poetas (leia mais AQUI) , aos bardos e às pessoas totalmente sem instrução. Assim, não há contradição entre essas afirmações.

** O primeiro caldeirão chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sofhis (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar. Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente inclinado em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria”, o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu 7 is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/[…] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amhrán Mór, que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne 7 rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis 7 airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte*.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria*. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria*/**.

* Os caldeirões são três, podendo também cada um deles assumir três diferentes posições: fóen ou uas toíb (em pé, isto é, na posição correta); de thoíb ou lethchlóen (inclinado); fora béolu ou for béolu ou ainda is toib (invertido). A posição em pé é a considerada ideal; a invertida é a menos desejável; a posição inclinada é um estado intermediário. Essas posições correspondem: fóen/uas toíb – o caldeirão está cheio; de thoíb/lethchlóen – o caldeirão está meio cheio; fora béolu/for béolu/is toib – o caldeirão está vazio.

** Este trecho deve ser analisado em conjunto com o que diz “O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo”, pois é na verdade um comentário sobre a natureza de Coire Goiriath. Coire Érmai está invertido em todas as pessoas sem arte, ou seja, ignorantes, e meramente inclinado nos bardos. Naqueles que são os maiores dentre os poetas, grandes correntezas de sabedoria (implicitamente os ollúna, grau mais alto dos filí), Coire Érmai mostra-se com a boca para cima. Desse modo, o Caldeirão do Movimento deve ser entendido como continuação do Caldeirão do Aquecimento. Nos ollúna, Coire Érmai é simplesmente Coire Goiriath em qualquer posição que este antes se encontrasse, sem que nada lhe fosse acrescentado. Coloca-se uma oposição entre os ollúna, de um lado, e os anruthanna (segundo grau dos filí), descendo toda a hierarquia dos poetas até chegar aos baird e às pessoas sem instrução, do outro. Como se dá então que o Caldeirão do Movimento possa ser cheio e “virado pela tristeza ou pela alegria”? Não se trata de contradição, pois esse é um processo dinâmico. O Caldeirão do Movimento é a transição entre o Caldeirão do Aquecimento e o Caldeirão da Sabedoria, ocorrendo entre eles uma sequência de esvaziamentos e enchimentos contínuos. Coire Goiriath começa com a boca para cima, Coire Érmai inicia no estágio em que o esvaziamento já começou (inclinado). Este processo se completa e, quando Coire Érmai é cheio novamente, converte-se em Coire Sofhis.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae 7 brón éoit 7 ailithre ar dia 7 is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea 7 fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae 7 fáilte sláne 7 nemimnedche, imbid bruit 7 biid co feca in duine for bairdni 7 fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum 7 fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Bóinn, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai 7 dóendai & tráchtairi raith 7 frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith 7 do-gniat inna firthu, condat fásaige 7 bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta a cada pedido. E a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior*.

* O impulso para produzir poesia vem de dentro do indivíduo como resposta a circunstâncias externas, ou a habilidade para produzi-la já existe internamente no indivíduo, mas necessita do impulso de circunstâncias externas para manifestar-se, o que é confirmado pelo que está abaixo, faillsigther tri brón, “que é revelado por meio da tristeza”. No caso da alegria (dividida em humana e divina, fáilte déodea 7 fáilte dóendae), o caso é inverso: acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar, “e a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior”. Neste caso, a habilidade poética não está presente no indivíduo, mas precisa ser fornecida, e o impulso não vem de dentro da pessoa, mas do exterior. Isso é confirmado pela frase tórumae ind raith déodai, que fala da chegada da graça divina ao caldeirão, fazendo-o virar à posição correta. As quatro alegrias humanas antes mencionadas referem-se aos estágios sucessivos na carreira do poeta: chegada à adolescência, aprendizado exitoso com um mestre, aquisição das prerrogativas da poesia depois do estudo e a final aquisição do imbas.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado*.

* Observe-se que Coire Érmai, que pode ser considerado o mais importante dos três caldeirões, embora não haja menção de que distribua nenhum tipo de conhecimento (sofhis); sua peculiaridade é iarmo-bí impúd moigid, “aumenta depois de virar”, ou seja, torna-se Coire Sofhis. Coire Érmai representa um estágio intermediário entre Coire Goiriath e Coire Sofhis; este apresenta a característica de receber acréscimos, mas nunca sofrer diminuições; esses acréscimos são as “alegrias e tristezas” mencionadas no texto; veja-se adiante o seu significado.

Fó topar tomseo,
fó atrab n-insce,
fó comair coimseo,
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo*,
boa é a aquisição da fala,**
boa é a confluência do poder***,
que edifica a força.

* .I. is maith in coiri asa toimsidhher fri fidh 7 deach, “isto é, bom é o caldeirão graças ao qual se mede por letra e metros poéticos”, isto é, o conhecimento da gramática, da escrita e da métrica, que obviamente era um prerrequisito necessário a qualquer pessoa instruída.

** “Boa é a aquisição da fala”, isto é, a aquisição do poder de compor poesia, ou ser inspirado .i. is maith in coiri a fuil in tein fesa, “isto é, bom é o caldeirão em que se encontra o ‘fogo do conhecimento’ (tein fesa)”; assim, as tristezas e alegrias antes mencionadas são tipos diferentes de inspiração.

*** .I. is maith in coiri asa comainsidhther so uile, “isto é, bom é o caldeirão do qual tudo isso é obtido”.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Vejamos agora outro texto irlandês* que fala sobre a composição do Adão bíblico de um modo que curiosamente faz lembrar o Adam Kadmon (“homem original”) do Zohar e do Talmud.

* Codex Clarend, v.XV, fol. 7,p. 1, col. “a”, Londres, British Library, MS Additional 4783/03-07 (fim do séc. XV).

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do uiii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e seu semblante; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

Portanto, Adão foi feito de oito partes:

1) terra (corpo, isto é, a carne);
2) mar (sangue);
3) o sol (rosto e semblante);
4) as nuvens (ilegível);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) Espírito Santo (alma) e
8) luz do mundo (devoção).

Dessa lista de correspondências, podemos concluir que há uma simetria entre Adão e o Mundo: a carne de Adão é a terra do Mundo; o mar do Mundo é o sangue de Adão.

Vimos que há três caldeirões no homem, isto é, em Adão: Aquecimento, Movimento e Sabedoria e a cada um deles atribuirei igual número de elementos. Isso exige que a relação seja emendada, acrescentando-se níab* (“força vital”) ao fim e trocando o Espírito Santo por um elemento natural que está claramente ausente: a lua.

* Irlandês antigo níab, “vigor, essência” < proto-céltico *neibos, galês nwyf, “vigor, energia”, nwyfre,“firmamento, força vital”.

O rol de elementos ficará assim:

1) terra (carne) – indolência;
2) mar (sangue) – inconstância;
3) sol (rosto) – beleza, vigor;
4) nuvens (mente) – superficialidade, tolice;
5) vento (respiração) – robustez contra todos;
6) pedras (ossos) – dificilmente dominável, desonestidade, cobiça;
7) lua (alma) – intensidade, boa aparência, tocado pela graça divina;
8) luz do mundo (devoção) – merecedor de amor, sensatez
9) níab (espírito) – engenhosidade, inteligência, vivacidade

Tabela 1

Elementos

 

Caldeirões

Força

Cósmicos

Pessoais

Deidade*

9
Sabedoria
Bua
Lua
Alma
Anu
8
Sabedoria
Bua
Luz do Mundo
Devoção
Manannán
7
Sabedoria
Bua
Níab
Espírito
Dagda
6
Movimento
Brí
Pedras
Ossos
Cailleach
5
Movimento
Brí
Vento
Respiração
Lugh
4
Movimento
Brí
Nuvens
Mente
Brigit
3
Aquecimento
Dán
Sol
Rosto
Ogma
2
Aquecimento
Dán
Mar
Sangue
Morrígu
1
Aquecimento
Dán
Terra
Carne
Macha
 

Caldeirões

Força

Localização

Mundo

Corrente

9
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
8
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
7
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
6
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
5
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
4
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
3
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
2
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
1
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
 * A atribuição destas divindades aos elementos é puramente experimental, sem caráter definitivo.

Tabela 2

VII

Níab

Espírito

VIII

Luz do Mundo

Devoção

 

IX

Lua

Alma

Bua

Céu

Sabedoria

IV

Nuvens

Mente

V

Vento

Respiração 

VI

Pedras

Ossos

Brí

Terra

Movimento

I

Terra

Corpo

II

Mar

Sangue

 

III

Sol

Rosto

Dán

Mar

Aquecimento

Sabedoria

IX – Lua – alma – influência, irradiação
VIII – Luz do Mundo – devoção – valorização
VII – Níab – espírito – comunicação

Movimento

VI – Pedras – ossos – independência, rigidez, egocentrismo
V – Vento – respiração – robustez, resistência
IV – Nuvens – mente – gravidade, seriedade, confiabilidade

Aquecimento

III – Sol – rosto – beleza, saúde
II – Mar – sangue – estabilidade, constância, equilíbrio
I – Terra – corpo – vigor, vitalidade, dinamismo

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Ogham: Método de Leitura 2 – Os Quatro Braços

Realize o Rito Divinatório, mas substitua a Runā antes da Oração pela versão abaixo.

Esta é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Ergo minhas mãos sob o olhar do Dagda (1) que me formou,
Sob o olhar de Lugh (2) que me fez livre,
Sob o olhar de Bile (3) que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Macha (4),
A amizade de Brigit (5),
A sabedoria de Ogma (6),
A bênção da Morrígu (7).
O temor de Tuireann (8),
A vontade de Manannán mac Lir (9),
Para que no Mundo do Três eu faça como os Deuses e os Ancestrais fazem em Mag Mell.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite, dai-me vosso poder e proteção.

Na Ceithre Géaga (Os Quatro Braços)

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Este padrão de leitura incorpora o poder triplo da Terra, do Mar e do Céu e o poder quádruplo das quatro direções. Comece desenhando um caractere que o represente ou represente o outro. Coloque-o no centro da superfície de leitura. Agora você criará os braços da cruz, começando pelo leste. Disponha os feda na sequência mostrada na figura abaixo.

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Para interpretar os sinais, comece com o fid do centro. Essa interpretação representa o estado atual da pessoa a quem se refere.

A seguir, continue com o fid mais próximo do centro, no lado leste. O leste representa prosperidade e estabilidade, novos começos. O fid mais próximo do centro representa as forças de estabilidade que mais influenciaram a pessoa no passado. O fid do meio representa as forças de estabilidade e segurança que no presente influenciam a pessoa e o mais distante é a energia criativa do futuro.

Vá então para o sul. O braço sul representa as forças de transformação em movimento. O fid mais interno representa coisas que causaram transformações no passado, quer tenham sido boas ou ruins. O fid do meio representa coisas que estão no presente transformando a pessoa e o exterior, coisas que a transformarão no futuro.

O braço oeste é o próximo. Comece novamente com o fid mais próximo do centro. O braço oeste representa os poderes de conhecimento e introspecção. Trata da jornada interna da pessoa. A jornada interna abrange os elementos que são únicos em cada indivíduo, ou seja, a sua personalidade, pensamentos e emoções e o sentido de autoidentidade. O fid interno do oeste representa as energias que dirigiram a jornada interior da pessoa no passado. O fid do meio representa aquelas que a influenciam no presente e o fid exterior, as forças internas que provavelmente estarão em atividade no futuro.

Finalmente, interprete o braço norte. O norte é a direção da conflito e questionamento. O fid interior desse braço representa os elementos que levaram o indivíduo à luta consigo mesmo ou com o mundo exterior. O do meio representa as energias de batalha e combatividade no presente. O externo, as mesmas energias no futuro.

Ao ganhar experiência com os Quatro Braços, você poderá experimentar interpretações diferentes dos feda que compõem os braços. Uma interpretação bastante poderosa é a “Tese/Antítese/Síntese”. Nessa leitura, o fid mais interno de cada braço representa a “tese” ou tema na vida do indivíduo que diz respeito à energia daquele braço em particular. Por exemplo, ao ler o braço leste usando a leitura “Tese/Antítese/Síntese”, o fid mais interno representaria as forças criativas em ação na vida de uma pessoa. Em seguida, o fid da “antítese”, ocupando a posição central no braço, representa os poderes que estão impedindo a expressão plena do fid da “tese”. É o pólo oposto do fid da “tese”. Por exemplo, se você estiver lendo o braço leste, o fid da “antítese” traria as forças que bloqueiam a criatividade da pessoa. Por fim, temos o fid da “síntese” de cada braço. Esse é o fid mais exterior. Ele representa as energias necessárias para alcançar o equilíbrio entre a “tese” e a “antítese” na vida da pessoa. Voltando ao braço leste, o fid da “síntese” representa as forças necessárias para sobrepujar os bloqueios à criatividade representados pelo fid da “antítese” de forma que aquelas representadas pelo fid da “tese” sejam capazes de vencer a barreira, atingindo pleno florescimento no futuro através das energias do fid da “síntese”.

Esta particular interpretação dos Quatro Braços é um tanto difícil, mas poderá tornar-se um valioso instrumento divinatório quando você ganhar prática com ele.

1) Filho de Elatha e Danu, pai de Aengus, Bodb Derg, Cermait, Midir e Brigit. Chamado “Deus Bom” e “Homem Vermelho do Grande Conhecimento”, o Dagda possui uma harpa mágica chamada Uaitne, que ele usa para chamar as estações, bem como uma clava que pode tirar a vida com uma ponta e restaurá-la com a outra e um caldeirão inesgotavelmente cheio do melhor alimento. Teve Brugh na Boinne como residência. Seu verdadeiro nome é Aed Abaid Essa Ruaid (“Chama Vivaz, filho da Cascata Vermelha”).

2) Chamado Lamhfáda (“Mão Comprida”), filho de Cian e Ethlinn e filho adotivo de Tailtiu e Eochaid, recebe também o epíteto Samildánach (“Mestre em Todas as Artes”). Nuada abdicou do trono em seu favor por 13 dias a fim de obter seu auxílio contra os Fomoirí. Seus irmãos de criação são os filhos Manannán. NaSegunda Batalha de Maigh Tuireadh, Lugh arremessou uma lança que empurrou o olho maléfico de Balor para trás, fazendo-o sair por sua cabeça e matando-o instantaneamente junto a 27 guerreiros do exército inimigo. Lugh é o pai de Cúchullain.

3) Nos relatos pseudo-históricos, o mais remoto ancestral dos irlandeses.

4) Uma das muitas faces da “Soberania de Ériu” (Flaith Érenn).

5) Uma das grandes deusas das Tuatha Dé Danann, seus atributos são a poesia, a cura e a forja. Seu nome significa “A Elevada”, porém se acreditava que fosse proveniente de breo saighit, “seta flamejante”. É filha do Dagda, e com Bres mac Elathan, mãe de Ruadan.

6) Chamado Grianenech, “Rosto de Sol”, Ogma é o pai de Tuireann e irmão do rei Nuada. É um grande guerreiro das Tuatha Dé Danann, conhecido como Trenfer, “Homem Forte”. É o inventor da escrita ogâmica.

7) Uma das grandes deusas das Tuatha Dé Danann. Forma, juntamente com Badb e Macha, uma tríade de divindades temíveis, cujos poderes de encantamento podem trazer névoa, nuvens de escuridão e chuvas de fogo e sangue sobre seus inimigos.

8) Filho de Ogma, pai de Brian, Iuchar e Iucharba e de uma filha, Ethne. Seus filhos mataram Cian, o pai do deus Lugh e foram em vingança mortos por este.

9) Dito mac Lir, “filho do Mar”, Manannán era ainda maior que Nuada, rei das Tuatha Dé Danann. Conhecedor de todos os encantamentos, foi Manannán que ensinou às Tuatha onde se esconder em segurança de seus inimigos, tendo o poder de cercar com muralhas as colinas e vales mais belos da Irlanda e torná-los invisíveis.

Bellouesus /|\

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Ogham: Oracular 1 – Aicme hÚatha – Sagragnos


uathÚath, o Espinheiro-Branco

A Cailleach
A Terrível

Refúgio. Úath é o espinheiro-branco, é repouso, descanso, um abrigo. É a pausa para tomar fôlego depois de um esforço. É respirar enquanto se olha da sacada para o que está embaixo. Atrás das muralhas do castelo, talvez seja possível perceber o que levou alguém para dentro. Agora é o tempo para reunir forças antes de aventurar-se outra vez no exterior. É o momento para o treinamento e a disciplina, para praticar as artes e habilidades de que precisaremos ao emergirmos novamente para nossa jornada, apesar de todas as forças que possam surgir como obstáculos no caminho. É o tempo de relaxar. Esta é a casa de descanso, o caramanchão ao fim de um dia de dura jornada. É o consolo que conforta. É o alívio dos perigos e dificuldades que foram superados. Mesmo que você se sinta profundamente ferido, pode sentir-se agradecido por sua vida e pela oportunidade de repousar, recuperar-se e restaurar sua saúde, adquirindo o que será preciso para o restante da viagem pela vida. Úath é o calor do fogo da lareira ao final de um dia de trabalho, de um dia de luta. Talvez os Deuses estejam conosco pela manhã.

dairDair, o Carvalho

O Rei das Árvores
O Rei-Carvalho

Campeão. Dair é o carvalho, o campeão, o vassalo de um grande senhor. É força, o guerreiro treinado, o membro veterano da legião de um Grande Rei. É alguém que está pronto a liderar os cavaleiros de seu senhor à batalha e capaz de demonstrar as qualidades essenciais de um cavaleiro. É alguém adornado com cortesia e com valores corteses. É generosidade, magnanimidade e hospitalidade. É coragem e liderança e as habilidades físicas, mentais e espirituais do líder dos guerreiros. É não apenas o aguçado conhecimento da tática e da estratégia, mas também a habilidade de determinar quando é necessário alcançar os objetivos do Grande Rei através de outros meios, incluindo-se a diplomacia. É o discurso cortesão, a conversação diplomática, a audição atenta de quaisquer palavras que possam ser ditas na presença de alguém, uma intenção nobre de resolver qualquer disputa, compreensivamente e pacificamente, se possível, embora nunca abandonando as obrigações essenciais que nos foram confiadas, e sempre prontos a lutar, se a isso formos chamados.

tinneTinne, o Azevinho

Fogo
O Rei-Azevinho

Equilíbrio. Tinne é o azevinho, é equilíbrio, justiça, o Caminho do Meio, harmonia, arbitragem, retribuição, ação e reação, a luta justa, coragem, a homenagem. É o que equilibra os pratos da balança. É o Meio-Termo, o trilhar do caminho entre os extremos, mas, especialmente, é o que corrige os desequilíbrios, o que resolve os problemas satisfatoriamente. É a avaliação clara e perspicaz de todos os fatores em um problema, legal, financeiro ou científico. Em todo aspecto da vida, o cálculo refletido, bem resolvido. Um aspecto disso é realçar uma possível exigência para estar consciente de que as decisões estão chegando ao plano de frente da vida e chegou o momento de ponderar os problemas e fazer escolhas informadas.

collColl, a Aveleira

O Poder Triplo
A Força da Palavra

Inspiração. Coll é a aveleira, é inspiração, é a cintilação da idéia que salta para dentro da mente, é a fonte de que fluem a poesia e todas as artes. É a voz das Musas ressoando na mente, a qual irá traduzir-se em matéria, forma física, substância sólida, em música, canção, drama, arte, estruturas, edifícios, instrumentos científicos, deduções filosóficas, ritos e rituais religiosos, crenças e religiões, qualquer coisa surgida da inspirada mão da humanidade. É a meditação, embora não primordialmente as premeditadas técnicas para silenciar as muitas vozes da mente ou para aprender a concentrar-se num item em particular, simples ou complexo, como fruto da meditação, não importando quais métodos e técnicas sejam empregadas como sementes desse fruto. Coll é o aspecto da divinação que é a aurora da percepção sobre a realidade, para que possamos trilhar nossos próprios caminhos produtivamente, saltando, correndo, andando à toa, dançando com criatividade, buscando com qualidade uma realidade inspirada. Como toda fonte de conhecimento e percepção, a inspiração pede avaliação equilibrada e consciência consciente.

certCert, a Macieira

A Árvore da Eternidade

Beleza. Cert é a macieira, juventude e beleza, é amor, é vida eterna, é o encanto do monde das Fadas, é o som delicioso da harpa tocada em Tara, é o feito nobre que os bardos cantarão para você, é a virtude não maculada, é o pulo do coração com o sorriso da amada e o brilho dos olhos de quem você ama fazendo tudo o mais fugir da mente, é o verde esplêndido da Ilha dos Abençoados, é felicidade que ocupa todo o espaço, é o coração andando com passos largos em botas de sete léguas, é a floresta verdejante sorrindo sob os tépidos raios do Sol depois da benção da chuva que dá a vida. Embora seja um momento de grande alegria, é preciso lembrar que o ciclo de vida continuará e a roda poderá girar. É preciso estar mentalmente (e de outras formas) preparado para viver com dignidade em outras fases da vida.

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Divinação com Moedas

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Pode ser usado em conjunto com o Oráculo de Olympos, particularmente quando o intérprete não se sentir seguro quanto ao sentido da resposta. Quer seja usado com esse oráculo, quer isoladamente, o procedimento deve observar o Rito Divinatório.

O procedimento divinatório é simples:

1 Faça a sua pergunta (que seja clara, concisa e concreta!).

2 Sacuda as moedas (são 4 moedas).

3 Lance-as sobre uma superfície.

4 Observe quantas caras e coroas.

A ordem não é importante; conte somente quantas caem sobre qual lado. Cinco resultados são possíveis (5 caras; 3 caras + 1 coroa; 2 caras + 2 coroas; 1 cara + 3 coroas; 5 caras), apresentando os seguintes significados gerais:

4 caras (Teχtā, “Posses”): Um “sim” pleno. A graça dos deuses. Facilidade, rapidez e sucesso. Os deuses estão contentes com você e você conta com o seu auxílio. Você está trilhando um caminho abençoado em harmonia com a vontade dos deuses. Um “sim” que vem do fundo do coração. O mais positivo dos resultados.

3 caras, 1 coroa (Dremman, “Subida”): Um “sim” vacilante. Refaça a pergunta de modo mais específico. Os deuses já se pronunciaram. Pode ser oportuno fazer-lhes oferendas. Você pode estar esquecendo alguma coisa ou precisando de novas medidas para assegurar o seu sucesso.

2 caras, 2 coroas (Petrumantalon, “Encruzilhada”): Sim, porém com pouco entusiasmo, quase um “tanto faz”. Todos os caminhos estão abertos. Tudo é possível. Você pode, se quiser, fazer o que está na sua mente, bem como deixar de fazê-lo. Não importa. Liberdade para seguir em qualquer direção. Continue a fazer mais perguntas. Os deuses não estão particularmente interessados na sua escolha.

1 cara, 3 coroas (Tou̯onidon, “Descida”): Não, talvez de modo um pouco reticente. A situação não vai se encaminhar da forma que você espera. Você está batendo na porta errada. Nada está trabalhando contra você, mas simplesmente não vai acontecer. Os deuses já julgaram o caso contra você.

4 coroas (Drukon, “o Mal”): Absolutamente não. Um “não” agressivo e zangado. Não pergunte mais, pare de questionar. Graves problemas prendem-no à sua condição. Os deuses estão zangados com você. Talvez você esteja amaldiçoado, marcado ou afundado num atoleiro de influências negativas. Necessita purificar-se, jejuar e apaziguar os deuses, pois os seus planos ou interesses são reprováveis e desprezam toda moralidade. Não se envolva com isso.

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Autodefesa Psíquica 1

Dion Fortune. Autodefesa Psíquica: como se defender dos ataques de natureza psíquica desencadeados contra nós (Psychic Self-Defense – A Study in Occult Pathology
and Criminality).

Autodefesa Psíquica 1

PREFÁCIO

Problemas concernentes à redação de um livro sobre autodefesa psíquica / Os ataques psíquicos são mais comuns do que pensamos / Os anúncios dos cursos que  desenvolvem o poder mental / A experiência pessoal da autora com um ataque psíquico / Psicologia e ocultismo / Ligação entre o abuso dos poderes mentais e o culto das bruxas

Foi com consciência dos problemas implicados que me entreguei à tarefa de escrever um livro sobre o ataque psíquico e sobre os melhores métodos de defesa contra ele. O empreendimento está cercado de armadilhas. É praticamente impossível fornecer informação prática sobre os métodos de defesa psíquica sem ao mesmo tempo fornecer informação prática sobre os métodos de ataque psíquico. Não é sem razão que os iniciados sempre guardaram sua ciência secreta atrás de portas fechadas.  Revelar o suficiente para perfeito entendimento sem ao mesmo tempo revelar demais que se torne perigoso, eis o meu problema. Mas como muito já se tornou conhecido a respeito dos ensinamentos esotéricos, e como o círculo de estudantes do oculto está se tornando mais amplo a cada dia, pode bem ser que tenha chegado a hora de falar sem rodeios. Não procurei a tarefa, mas, visto que ela me veio às mãos, farei o melhor que puder para cumpri-la honradamente, tornando acessível o conhecimento que acumulei durante a experiência de muitos anos com as estranhas veredas da mente que o místico partilha com o lunático. Este conhecimento não foi obtido sem algum custo, nem, como suspeito, será a sua divulgação inteiramente isenta de encargos.

Procurei evitar, na medida do possível, a utilização de material de segunda mão. Todos conhecemos a pessoa que tem um amigo cujo amigo viu um fantasma com os seus próprios olhos. Isso não é de muita utilidade a ninguém. O que precisamos é ter a testemunha sob rigorosa investigação. Por esse motivo, não recorri à vasta literatura sobre o assunto em busca de ilustrações para a minha tese, preferindo contar com os casos que se alinharam no âmbito de minha própria experiência, e que fui capaz de examinar.

Penso que posso reivindicar a posse de qualificações práticas, e não apenas teóricas, para a tarefa. Minha atenção voltara-se inicialmente para a psicologia, concentrando-se depois no ocultismo como a chave real para a psicologia, devido à experiência pessoal de um ataque psíquico que me deixou com a saúde arruinada por um período considerável. Conheço por mim mesma o horror peculiar de tal experiência, sua insídia, sua potência e seus desastrosos efeitos sobre a mente e o corpo.

Não é fácil conseguir que as pessoas se apresentem e testemunhem os ataques psíquicos. Em primeiro lugar, porque elas sabem que há pouquíssima probabilidade de que acreditem nelas e que é mais provável receberem a pecha de desequilíbrio mental. Em segundo lugar, porque qualquer intromissão nas bases da personalidade é uma experiência horrorosa de tal modo peculiar e singular que a mente procura evitá-la e o indivíduo não consegue falar sobre o assunto.

Sou da opinião de que os ataques psíquicos são mais comuns do que geralmente acreditamos, e mesmo os ocultistas não avaliam a sua extensão. O público em geral não imagina absolutamente as coisas que são feitas pelas pessoas que têm um conhecimento dos poderes da mente humana, e que se dão ao trabalho de explorá-los. Os estudantes do ocultismo sempre tiveram o conhecimento desses poderes, mas atualmente eles são conhecidos e utilizados por pessoas que ficariam sobremodo surpresas ao descobrirem quem são os seus colegas de prática. A Sra. Eddy, fundadora da Ciência Cristã, topou com esses métodos empiricamente, sem jamais ter adquirido qualquer conhecimento racional de seu modus operandi. Ela procurou ensiná-los de tal modo que eles pudessem ser utilizados apenas para o bem, e que seus poderes para o mal não viessem à tona; mas que ela própria teve conhecimento de suas possibilidades malignas, testemunha-o o terror por aquilo que ela chamava de “Magnetismo Animal Malévolo” e que ensombreceu toda a sua vida.

Os métodos da Ciência Cristã, sem a sua disciplina estrita e a sua cuidadosa organização, foram desenvolvidos e explorados pelas inúmeras escolas e seitas do Movimento do Novo Pensamento. Em muitos desses desdobramentos, o aspecto religioso foi esquecido e os métodos se tornaram simplesmente uma coleção de regras de manipulação mental para fins pessoais, embora não para fins deliberadamente malignos. Seus representantes informaram que poderiam ensinar a arte de vender, de tornar o indivíduo popular e influente na sociedade, de atrair o sexo oposto, de obter dinheiro e sucesso. O número surpreendente desses cursos anunciados mostra a sua popularidade; numa publicação recente de uma revista americana, contei anúncios de sessenta e três diferentes cursos de treinamento em várias formas de poder mental. Eles não seriam tão populares se não obtivessem nenhum resultado. Consideremos alguns desses anúncios e vejamos o que eles indicam, lendo nas entrelinhas e tirando as nossas próprias conclusões.

“Transmita seus pensamentos aos outros. Peça folheto grátis. Telepatia ou Rádio Mental”.

“Problemas com saúde, amor, dinheiro? Deixe-me ajudá-lo. Não haverá falhas, se você seguir as instruções. Estritamente pessoal e profissional. Cuidadoso como o médico da família. Remeta cinco dólares ao fazer o pedido. Devolveremos o dinheiro se você não ficar satisfeito.’’

“O que você deseja? Seja o que for, podemos ajudá-lo a conseguir. Dê-nos a chance de ajudá-lo escrevendo para ‘Nuvens Limpas’. Absolutamente grátis. Você ficará encantado.”

“HIPNOTISMO. Não possuirá você esse estranho e misterioso poder que encanta e fascina homens e mulheres, influencia seus pensamentos e controla seus desejos, e que o torna mestre supremo de todas as situações? A vida está repleta de possibilidades sedutoras para aqueles que dominam os segredos da influência hipnótica e para aqueles que desenvolvem seus poderes magnéticos. Você pode aprender em casa a curar doenças e maus hábitos sem drogas, a conquistar a amizade e o amor, a aumentar seus rendimentos, a realizar seus desejos, a afastar os aborrecimentos e as preocupações de sua mente, a aperfeiçoar sua memória, a superar as dificuldades domésticas, a dar o mais emocionante entretenimento jamais testemunhado e a desenvolver uma força de vontade prodigiosamente magnética, que lhe permitirá superar todos os obstáculos ao seu sucesso.

“Você pode hipnotizar as pessoas instantaneamente — tão rápido quanto um relâmpago — pode conseguir que você mesmo ou qualquer outra pessoa durma em qualquer hora do dia ou da noite, ou acabar com a dor e o sofrimento. Nosso livro grátis conta para você os segredos dessa ciência maravilhosa. Ele explica exatamente como você pode utilizar esse poder para melhorar suas condições de vida. Nosso livro foi entusiasticamente aprovado por ministros evangélicos, doutores, executivos e mulheres da sociedade. Ele traz benefícios a todos. E não custa nada. Nós o distribuímos para informar sobre a nossa instituição.”

Tais são alguns poucos exemplos escolhidos dentre os sessenta e três anúncios incluídos nessa única publicação de uma popular revista semanal. Eles foram reproduzidos in extenso, e sem alterações, exceto pela omissão dos endereços.

Consideremos agora o que anúncios como esses significam do ponto de vista das pessoas a quem não são dirigidos, as pessoas sobre quem se presume que o leitor procura adquirir poder. Qual será a sua posição se este quebrar o décimo mandamento e cobiçar a mulher alheia, ou seu gado, ou seu asno, ou qualquer outro de seus valores? Suponhamos que o estudante diligente desses métodos deseje algo que não deveria ter. Suponhamos que ele esteja do outro lado da lei. Ou que sofreu uma injúria e deseja vingar-se. Ou que apenas gosta do poder para seu próprio benefício. Qual será o destino da bucha de canhão que fornece ao estudante da força mental a munição para as suas experiências? Qual a sensação de ser dominado por esses métodos, e quais os resultados que podem ser finalmente obtidos por um experimentador experiente?

Deixem-me contar-lhes a minha própria experiência, por mais penosa que ela seja, pois alguém deve apresentar-se pela primeira vez e revelar os abusos que podem florescer quando não se compreende o significado desses poderes.

Quando eu era uma jovem de vinte anos, entrei para o serviço de uma mulher que, hoje sei, devia possuir um considerável conhecimento de ocultismo, obtido durante uma longa estada na Índia, e a respeito do qual ela costumava dar indiretas que eu não podia entender naquela época, mas que, à luz dos conhecimentos posteriores, eu viria a compreender muito bem. Ela costumava controlar os empregados por meio de seu conhecimento do poder mental, e as pessoas que trabalhavam para ela apresentavam uma constante sucessão de colapsos muito peculiares.

Eu não estava empregada há muito quando ela precisou de mim para testemunhar numa ação judicial. Ela era uma mulher de temperamento violento e havia demitido um empregado sem aviso prévio, sem pagar-lhe o que devia, e ele a estava acionando para receber o dinheiro a que tinha direito. Ela precisava de mim para dizer que o comportamento desse homem havia sido de tal ordem que ela tinha justificativas para demiti-lo daquela maneira. Seu método para obter meu testemunho foi fixar os meus olhos com um olhar fixo e concentrado e dizer tais e tais coisas aconteceram”. Felizmente para todos os envolvidos, eu mantinha um diário e havia registrado diariamente todos os incidentes. Se não fosse por isso, não sei o que me teria acontecido. Ao fim da entrevista, eu estava atordoada e exausta, e sem me despir caí em minha cama e dormi o sono da exaustão absoluta até a manhã seguinte. Acredito que tenha dormido por cerca de quinze horas.

Pouco depois disso, ela precisou novamente de meu testemunho. Ela desejava livrar-se de meu superior imediato, e precisava encontrar provas suficientes para justificar a sua ação. Ela repetiu as manobras anteriores, mas dessa vez eu não tinha um registro diário a que recorrer, e para minha inteira surpresa me vi concordando com ela numa série de acusações inteiramente infundadas contra o caráter de um homem que eu não tinha razão alguma para acreditar que não fosse absolutamente honesto. A mesma exaustão e o mesmo sono de morte me assaltaram imediatamente depois dessa entrevista, como na vez anterior, mas um novo sintoma então se manifestou. Quando saí da sala ao término da entrevista, experimentei a curiosa sensação de que meus pés não estavam no lugar em que eu esperava que estivessem. Todo aquele que andou sobre um tapete que apresenta calombos devido aos tacos soltos compreenderá o que eu quero dizer. Os ocultistas reconhecerão um caso de extrusão do duplo etéreo.

O incidente seguinte nesse curioso ménage não envolveu a mim, mas a outra moça, uma órfã de meios consideráveis. Minha empregadora estava sempre em sua companhia e finalmente a persuadiu a confiar-lhe todo o seu capital. Entretanto, os curadores ficaram encolerizados, forçaram a minha empregadora a restituir os bens, e levaram imediatamente a moça consigo, deixando todos os seus pertences para serem empacotados e enviados ao novo endereço.

Um outro incidente ocorreu logo a seguir. Havia no estabelecimento uma mulher idosa que era um tanto quanto rebaixada mentalmente. Uma boa velhinha, mas infantil e excêntrica. Minha empregadora voltou a sua atenção para ela, e assistimos ao início do mesmo processo de domínio. Nesse caso não havia curadores para interferir, e a pobre e velha senhora foi persuadida a retirar seus negócios das mãos do irmão, que até então os administrava, e a confiá-los às boas graças de minha empregadora. Minhas suspeitas se confirmaram então completamente. Como não podia suportar a idéea de ver a velha “Tia” trapaceada, meti minha colher no assunto, coloquei a “Tia” a par da situação, coloquei seus pertences numa caixa, e a enviei aos seus parentes, numa ocasião em que a minha empregadora não estava presente.

Eu esperava que a minha cumplicidade no negócio não fosse descoberta, mas logo perdi as esperanças. A secretária de minha empregadora veio uma noite ao meu quarto, depois de apagadas as luzes, e avisou-me que a diretora, que é como a chamávamos, havia descoberto quem engendrara a fuga da ‘Tia”, e que eu deveria esperar pelo pior. Sabendo da sua natureza extremamente vingativa, compreendi que a minha única saída era fugir, mas uma fuga não era algo inteiramente fácil de realizar. A instituição em que eu estava era de natureza educacional, e cumpria formalizar o aviso prévio antes de sair. No entanto, eu não desejava de modo algum trabalhar durante esse prazo sob a tutela sem controle de uma mulher rancorosa. De modo que esperei uma oportunidade que justificasse a minha saída. Com o temperamento irascível de minha empregadora, eu não precisaria esperar muito tempo. Na noite seguinte, estando eu empenhada até tarde em preparar os meus pacotes na perspectiva de minha fuga, outro membro do grupo veio ao meu quarto — uma moça que falava raramente, não tinha amigas e fazia seu trabalho como um autômato. Eu jamais me relacionara com ela, e estava muito surpresa com a sua visita.

Contudo, ela logo se explicou.

“Você pretende sair?”, perguntou-me.

Admiti que de fato pretendia.

“Então vá sem ver a Diretora. Você não sairá se o fizer. Eu tentei por várias vezes, e não pude sair.”

No entanto, eu era jovem e confiava em minha força juvenil e não tinha meios de avaliar os poderes dispostos contra mim, e na manhã seguinte, em roupas de viagem, valise nas mãos, desci e enfrentei a minha formidável empregadora em sua toca, determinada a dizer-lhe o que ou pensava dela e de seus métodos, sem suspeitar de maneira alguma que outra coisa além de patifaria e intimidação estava preparada.

Não pude, no entanto, iniciar o meu discurso cuidadosamente preparado. Assim que ela soube que eu pretendia sair, disse-me:

“Pois bem, se quer ir, você irá. Mas antes que saia deve admitir que é incompetente e que não tem nenhuma autoconfiança.”

Estando disposta a lutar, perguntei-lhe por que não me demitia, já que eu era incompetente, e, de mais a mais, eu era apenas o produto de sua própria escola de
treinamento. Este comentário naturalmente não melhorou a situação.

Iniciou-se então uma extraordinária litania. Ela recorreu ao seu velho truque de fixar-me com um olhar atento e disse:

“Você é incompetente e sabe disso. Você não tem nenhuma auto-confiança e tem que admiti-lo.”

“Isso não é verdade. Eu conheço meu trabalho, e a senhora sabe que eu sei”, respondi.

Ora, não havia dúvida de que muito poderia ser dito a respeito da minha competência em meu primeiro emprego na idade de vinte anos, tendo inúmeras responsabilidades sobre os ombros e às voltas com um departamento desorganizado; mas nada podia ser dito contra a minha autoconfiança, exceto que eu a tinha em excesso.

Minha empregadora não fez objeções nem me ofendeu. Ela continuou a pronunciar as duas frases, repetindo-as como as respostas de uma litania. Eu entrara em sua sala às dez horas e a deixei às duas horas da tarde. Ela deve ter repetido as duas frases várias centenas de vezes. Quando entrei, eu era uma moça forte e saudável, mas saí arrasada e fiquei doente por três anos.

Algum instinto me advertiu que, caso admitisse que eu era incompetente e que não tinha nenhuma autoconfiança, as minhas forças se quebrariam e eu jamais poderia me recuperar depois, e reconheci que essa manobra peculiar de minha empregadora era um ato de vingança. Por que eu não segui o remédio óbvio de fugir, eu não sei, mas na hora em que percebemos que um fato anormal está para acontecer somos mais ou menos atraídos para ele, e assim como o pássaro diante da serpente não pode utilizar suas asas, não podemos do mesmo modo nos mover ou fugir.

Aos poucos, tudo começou a parecer irreal. Tudo que eu sabia era que precisava manter a todo custo a integridade de minha alma. Uma vez que eu concordasse com as suas sugestões, eu estaria liquidada. De modo que continuamos com a nossa litania.

Mas eu estava chegando perto do fim de minhas forças. Eu tinha a curiosa sensação de que o meu campo de visão estava se estreitando. Esse fenômeno é, como acredito, característico da histeria. Pelo canto dos olhos, eu podia ver dois muros de trevas avançando atrás de mim em ambos os lados, como se eu estivesse de costas para um biombo e este se fosse lentamente fechando sobre mim. Eu sabia que quando aqueles dois muros de trevas se encontrassem eu estaria perdida.

Aconteceu então uma coisa curiosa. Eu ouvi claramente uma voz interior dizer-me:

“Finja que está derrotada antes de o estar realmente. Ela cessará então o ataque e você poderá sair”. O que era essa voz, eu jamais o soube.

Segui imediatamente seu conselho. Mentindo, pedi desculpas à minha empregadora por tudo que havia feito ou que ainda faria. Prometi permanecer em meu posto e andar às direitas por todos os dias de minha vida. Lembro-me que cai de joelhos diante dela, e ela ronronou complacentemente para mim, satisfeitíssima com o trabalho da manhã, e ela bem tinha razão para assim estar.

Minha empregadora deixou-me sair, e eu entrei em meu quarto e me deitei na cama. Mas não pude descansar até escrever-lhe uma carta.

O que continha essa carta eu não sei. Assim que a escrevi e a coloquei num local em que ela a encontraria, senti uma espécie de estupor, e permaneci nesse estado com a minha mente em estado de absoluta suspensão até a tarde seguinte. Ou seja, das duas da tarde até por volta das vinte horas do dia seguinte — trinta horas. Era um frio dia de primavera e ainda caia neve. Uma janela junto à cabeceira da cama estava completamente aberta e o quarto não havia sido aquecido. Eu estava descoberta, mas não sentia nem frio nem fome, e todos os processos do corpo estavam em suspensão. Eu não me movia. As batidas do coração e a respiração eram muito lentas, e continuaram assim por muitos dias.

Fui encontrada por acaso pela governanta, que me reviveu com a simples aplicação de uma boa sacudida e uma esponja fria. Eu estava tonta e sem vontade de me mover ou mesmo de comer. Fiquei deitada na cama e meu trabalho ficou entregue a si mesmo, e a governanta vinha me ver de tempos em tempos, mas não fez nenhum comentário sobre o meu estado. Minha empregadora jamais apareceu.

Cerca de três dias depois, minha estranha amiga, que pensava que eu havia deixado a casa, soube que eu ainda lá me encontrava, e veio me ver; eis um ato que exigia alguma coragem, pois a nossa empregadora mútua era um adversário formidável. Ela me perguntou o que havia ocorrido em minha entrevista com a Diretora, mas eu não pude contar-lhe. Minha mente era um espaço em branco e toda a lembrança dessa entrevista havia desaparecido como quando passamos o apagador sobre uma lousa. Tudo que eu sabia era que das profundezas de minha mente provinha um pânico terrível que me obsediava. Não medo de qualquer coisa ou pessoa. Um medo simples sem um objeto definido, mas não há nada mais terrível do que isso. Fiquei na cama com todos os sintomas físicos que experimentamos sob medo intenso. Boca seca, mãos transpirando, coração palpitante e respiração superficial e acelerada. Meu coração batia tão forte que a cada batida uma maçaneta de bronze caída sobre a armação da cama chocalhava. Felizmente para mim, minha amiga viu que algo estava seriamente errado e avisou a minha família, que veio buscar-me. Eles ficaram naturalmente muito desconfiados. A Diretora estava embaraçadíssima, mas ninguém podia provar coisa alguma, de modo que nada foi dito. Minha mente era um espaço vazio. Eu estava completamente assustada e muito exausta, e meu único desejo era ir embora.

Eu não me recuperei, contudo, como era de se esperar. A intensidade dos sintomas diminuiu gradualmente, mas eu continuava a me cansar com muita facilidade, como se toda a minha vitalidade tivesse sido drenada. Eu sabia que, em algum lugar no fundo de minha mente, estava oculta a lembrança de uma terrível experiência, e eu não me atrevia a pensar nela, porque, se o fizesse, o choque e o esforço seriam tão severos que minha mente ficaria completamente arrasada. Minha consolação principal era um velho livro escolar de aritmética, e eu costumava passar horas e horas fazendo contas simples para evitar que a minha mente se fragmentasse perguntando o que me haviam feito e esgueirando-se em direção à memória, e dessa maneira eu me afastava da lembrança como um cavalo assustado. Por fim, ganhei um pouco de paz chegando à conclusão de que eu tinha simplesmente um esgotamento por excesso de trabalho, e que todo o estranho ocorrido era fruto de minha imaginação. E no entanto restava a sensação de que tudo era real e de que essa sensação não me deixaria descansar.

Cerca de um ano depois desse incidente, como minha saúde ainda estivesse precária, eu fui ao campo me recuperar, e lá entrei em contato com uma amiga que estivera em dificuldades exatamente por ocasião do meu colapso. Isso nos dava evidentemente bons assuntos para a conversa, e eu encontrara alguém que não procurava explicar minha experiência, mas, ao contrário, fazia perguntas pertinentes. Outra amiga interessou-se por meu caso e arrastou-me ao médico da família, que rudemente diagnosticou que eu havia sido hipnotizada. Esse incidente ocorreu antes dos dias da psicoterapia, e para auxiliar uma mente doente ele se limitou a administrar-me algumas palmadas nas costas e a receitar-me um tônico e brometo. O tônico foi útil, mas o brometo não, pois baixou meus poderes de resistência, e eu rapidamente o pus de lado, preferindo suportar o meu desconforto a ficar inerme. Durante todo o tempo, eu estava obsediada pelo medo de que essa estranha força que fora aplicada sobre mim de modo tão efetivo novamente me atacasse. Mas embora eu temesse esse misterioso poder, que estava bem mais difundido pelo mundo do que eu imaginara, não posso dizer que alívio foi para mim descobrir que todo o ocorrido não era uma alucinação, mas um fato real que podia ser discutido e enfrentado.

Obtive minha libertação desse medo encarando toda a situação e determinada a descobrir exatamente o que me havia acontecido e como eu podia me proteger pois a reação causada por recuperar as lembranças foi um pouco menos violenta do que a original; mas eu finalmente consegui libertar-me de minha atormentada condição de medo, embora tenha decorrido um longo tempo antes de minha saúde física tornar-se normal. Meu corpo era como uma bateria que tivesse sido completamente descarregada. Levava muito tempo para carregá-la novamente, e toda vez que ela era utilizada antes de a recarga estar completa, a carga se perdia rapidamente. Por um longo tempo, fiquei sem reservas de energia, e depois do menor esforço eu caía num sono de morte a qualquer hora do dia. Na linguagem do ocultismo, o duplo etéreo se danificara e o prana havia vazado. Ele só voltou ao normal depois que recebi a iniciação numa ordem oculta na qual treinei posteriormente. Num certo momento da cerimônia, senti uma mudança, e é apenas em raras ocasiões, desde então, após alguma injúria psíquica, que sofro temporariamente daqueles ataques esgotantes de exaustão. Narrei essa história em detalhes porque ela fornece uma boa ilustração da maneira pela qual os poderes pouco conhecidos da mente podem ser utilizados por uma pessoa inescrupulosa. A experiência de primeira mão tem muito mais valor do que qualquer coletânea de exemplos extraídos das páginas da história, ainda que bem autenticados.

Se o incidente acima descrito tivesse ocorrido durante a Idade Média, o padre da paróquia teria organizado uma caça às bruxas. Á luz de minhas próprias experiências, não me surpreendo que as pessoas que adquiriram a fama de praticar a bruxaria tenham sido linchadas, pois os métodos são terríveis e intangíveis. Podemos pensar que os relatos dos julgamentos de bruxas são ridículos, com as suas histórias de imagens de cera que se derretiam a fogo lento, ou a crucificação de sapos batizados, ou a recitação de pequenos refrãos, tais como “Horse, hattock, ia ride, ia ride “.Mas se compreendemos a utilização dos poderes da mente, podemos perceber que esses meios eram utilizados para auxiliar a concentração. Não há diferença essencial entre espetar agulhas numa imagem de cera de um inimigo e acender velas diante de uma imagem de cera da Virgem Maria. Podemos pensar que ambas as práticas não passam de superstição grosseira, mas não podemos pensar que uma é real e potente e negar a realidade e o poder da outra. “As armas de nossa guerra não são carnais”, poderiam muito bem dizer os praticantes tanto da Magia Negra quanto da Igreja.

Meu próprio caso pertence mais ao reino da psicologia do que ao do ocultismo, pois o método empregado consistiu na aplicação do poder hipnótico para fins impróprios; eu o narrei, contudo, porque estou convencida de que os métodos hipnóticos são largamente utilizados na Magia Negra, e de que a sugestão telepática é a chave para um grande número de seus fenômenos. Cito meu próprio caso, penoso como é para mim fazê-lo, porque uma grama de experiência vale mais do que um quilo de teorias.

Foi essa experiência que me levou a enfrentar o estudo da psicologia analítica, e posteriormente o ocultismo.

Assim que abordei os aspectos mais profundos da psicologia prática e observei a dissecação da mente efetuada pela psicanálise, compreendi que havia muito mais na mente do que era relatado pelas teorias psicológicas em voga. Percebi que permanecíamos no centro de um pequeno circulo de luz projetado pelo conhecimento científico, mas que ao redor de nós havia uma enorme e envolvente esfera de trevas, e que nessas trevas se moviam figuras imprecisas. Foi para compreender esses aspectos ocultos da mente que me dediquei ao estudo do ocultismo.

Vivi muitas aventuras no Caminho; conheci homens e mulheres que podiam ser indubitavelmente alinhados entre os adeptos; vi fenômenos que nenhuma sala de sessões jamais conheceu, e desempenhei minha parte neles; participei de contendas psíquicas, e pus minha atenção na lista da força policial oculta que, sob a direção dos Mestres da grande Loja Branca, vigia as nações, cada uma de acordo com a sua própria raça; mantive a vigília oculta, quando não se ousa dormir enquanto o sol está abaixo do horizonte; e aguardei desesperadamente, contrapondo meu poder de resistência ao ataque, que as marés lunares mudassem e a força da violenta investida se dissipasse.

E por todas essas experiências, aprendi a interpretar o ocultismo à luz da psicologia, e a psicologia à luz do ocultismo, de modo que uma contraprovasse e explicasse a outra.

Devido ao meu conhecimento especializado, as pessoas me procuravam quando se suspeitava de um ataque oculto, e suas experiências reforçaram e complementaram a minha. Além disso, há uma considerável literatura sobre o assunto nos lugares mais inesperados — nos relatos do folclore e da etnologia, nos anais públicos dos julgamentos de bruxas, e mesmo nos textos supostamente ficcionais. Esses relatos independentes, escritos por pessoas de maneira alguma interessadas nos fenômenos psíquicos, confirmam as exposições feitas por aqueles que experimentaram os ataques ocultos.

Por outro lado, devemos distinguir com muito cuidado a experiência psíquica da alucinação subjetiva; precisamos estar seguros de que a pessoa que se queixa de um assalto psíquico não está ouvindo a reverberação de seus próprios complexos dissociados. Efetuar a diagnose diferencial da histeria, da insanidade e do ataque psíquico é uma operação extremamente delicada e difícil, pois com freqüência os casos não têm contornos definidos, e mais de um elemento pode estar presente; um agudo ataque psíquico provoca um colapso mental, e um colapso mental deixa a sua vítima aberta à invasão do Invisível. Todos esses fatores devem ser considerados quando se investiga um pretenso ataque oculto, e será minha tarefa nestas páginas não apenas indicar os métodos da defesa oculta, mas também mostrar os métodos da diagnose diferencial.

É de fato necessário que as pessoas identifiquem, com todos os conhecimentos possíveis, um ataque oculto quando o vêem. Essas coisas são muito mais comuns do que pensamos. A recente tragédia de lona corrobora essa afirmação. Nenhum ocultista tem qualquer ilusão de que aquela morte deriva de causas naturais. Em minha própria experiência, tive conhecimento de mortes similares. Em meu romance The Secrets of Dr. Taverner, apresentei, à guisa de ficção, inúmeros casos que ilustram as hipóteses da ciência oculta. Algumas dessas histórias foram ideadas para mostrar a operação das forças invisíveis; outras foram extraídas de casos reais; e outras ainda foram antes anotadas do que redigidas a fim de torná-las acessíveis ao público em geral.

Essas experiências de primeira mão, confirmadas por testemunhos independentes, não deveriam ser menosprezadas, especialmente porque é difícil encontrar explicações racionais para elas, a não ser nos termos das hipóteses ocultas. Seria possível explicar cada caso individual mencionado nestas páginas alegando alucinação, fraude, histeria ou fingimento, mas não é possível explicar a totalidade deles dessa maneira. Não pode haver tanta fumaça sem algum fogo. Não é possível que o prestígio do mágico na antiguidade e o horror das bruxas da Idade Média se tenham originado sem alguma base na experiência. As basófias das bruxas seriam levadas tão a sério quanto as do camponês idiota, se nunca fossem acompanhadas de conseqüências maléficas. O medo foi o motivo das perseguições, e o medo baseou-se na experiência amarga; pois não foi o mundo oficial que incitou as queimas de bruxas, e sim as regiões rurais que provocaram os linchamentos. O horror universal das bruxas deve ter alguma causa atrás de si.

Os meandros labirínticos do Caminho da Mão Esquerda são tão extensos quanto tortuosos; mas embora expondo um pouco de seu horror, sustento, contudo, que o Caminho da Mão Direita da iniciação e do conhecimento oculto é uma trilha para as experiências místicas mais sublimes e um meio de amenizar o fardo do sofrimento humano. Nem todos os estudantes desse conhecimento fizeram necessariamente mau uso dele; muitos, ou quase todos, dele se ocupam desinteressadamente em benefício da humanidade, utilizando-o para curar e abençoar, e redimindo dessa maneira aquele que se perdeu. Poder-se-ia muito bem perguntar: Se esse conhecimento pode ser tão desastrosamente utilizado, qual a razão então de levantar-lhe o véu? A resposta a ser dada a essa questão é um caso de temperamento. Alguns afirmarão que todo conhecimento, seja qual for, é valioso. Outros poderão dizer que faríamos melhor em não mexer em casa de marimbondos. O problema contudo reside no fato de que os marimbondos têm a infeliz habilidade de se irritarem espontaneamente. Tanto conhecimento oculto está difundido pelo mundo e tantas coisas semelhantes às descritas nestas páginas passam despercebidas e insuspeitas em nosso meio, que é desejável que os homens de boa vontade investiguem as forças que os homens de má vontade perverteram para seus próprios fins. Essas coisas são as patologias da vida mística, e se elas fossem mais bem compreendidas, muitas tragédias poderiam ser evitadas.

Por outro lado, não é conveniente que todo mundo se compraza no estudo de manuais de patologia. Uma vivida imaginação e uma cabeça vazia fazem uma combinação desastrosa. Os leitores do antigo best-seller Three Men in Boat devem lembrar-se do destino do homem que passou uma tarde chuvosa de domingo lendo um manual médico. Ao final da leitura, ele estava firmemente convencido de que tinha todas as doenças nele descritas, com a única exceção da inflamação dos joelhos.

Este livro não foi escrito para simplesmente provocar arrepios, mas pretende oferecer uma séria contribuição para um aspecto pouco compreendido da psicologia anormal, desvirtuado, em alguns casos, para fins criminosos. Destina-se ele aos estudantes sérios e àqueles que se viram envolvidos com os problemas descritos, e que estão procurando compreendê-los e descobrir uma saída. Meu objetivo principal ao falar tão francamente é abrir os olhos de homens e mulheres para a natureza das forças que operam sob a superfície da vida cotidiana. Pode ocorrer a qualquer um de nós abrir caminho pela fina casca da normalidade e encontrar-se face a face com essas forças. Lendo os casos citados neste livro, podemos de fato dizer que, exceto pela graça de Deus, essa possibilidade poderia ocorrer a qualquer um de nós. Se puder transmitir nestas páginas o conhecimento protetor, terei realizado meu objetivo.

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

 

Propriedades Ocultas das Ervas & Plantas

propriedadesocultas

Crow, W. B. Propriedades Ocultas das Ervas & Plantas; seu uso mágico e simbolismo astrológico, o ritual das plantas e suas poções mágicas. Tradução:  Lindbergh Caldas de Oliveira e Helena Avramopoulos Hestermann. Hemus Editora Limitada: São Paulo, 1982, 70 pp.

Capítulo 1: A natureza das ervas

O relacionamento genético das plantas – Tipos de plantas – Algas – Fungos – Líquens – Samambaias – Gimnospermas – Angiospermas

Capítulo 2: Ervas como alimento

Os sete cereais – Sua origem misteriosa – Mito e Magia – Os mistérios de Elêusis – O rei e a rainha do feijão – Domingo do “carling” – O culto à maçã – Sortilégios com
maçãs – Outros rituais com frutos – A cerimônia japonesa do chá – Outras tisanas

Capítulo 3: Ervas que curam

Propriedades ocultas – Ayurveda, o sistema hindu – Moxa – Doutrina das características – Tratamentos com ervas – Homeopatia

Capítulo 4: Drogas e venenos

Bebidas alcoólicas fermentadas – O açúcar natural – A cerveja de amido – Tabaco – Ópio – Mescalina – Cânhamo indiano – Outras drogas vegetais – Cânfora: um
perigoso excitante – Afrodisíacos – Afrodisíacos mais conhecidos – Plantas venenosas – A rainha-mãe dos venenos

Capítulo 5: Ervas na alquimia

O elixir da juventude – Outros frutos – O sangue de Prometeu – Palingenésia – Geração espontânea

Capítulo 6: Ervas na astrologia

As estações – As plantas e a Lua – O relógio floral – Ervas planetárias – Ervas solares – Ervas lunares – A regência de Marte sobre plantas bienais – Plantas vivazes
herbáceas – Plantas vivazes arbóreas – Plantas zodiacais

Capítulo 7: Ervas na magia

Os druidas e a erva-de-passarinho — Os rosa-cruzes e a rosa — Poções mágicas do amor — O amor-perfeito — As ervas na profecia — Centáureas-azuis — Plantas
usadas na feitiçaria — Antídotos contra macumbas e coisas do gênero — Árvores como oráculos

Capítulo 8: Ervas na religião

Néctar – Os mistérios cristãos – Padrões complexos – Os cristãos nestorianos – A intinção no Oriente – O incenso – Óleos sagrados – O linho

Capítulo 9: Simbolismo das ervas

Os símbolos dos deuses – Simbolismo das plantas entre gregos e romanos – Símbolos de santos – Símbolos da virtude – Ervas e árvores heráldicas

Capítulo 10: Plantas míticas

A árvore cabalística da vida – A árvore da vida escandinava – A “árvore-Bodhi” – As três sementes – O homem arquetípico – Elementares e dementais (espíritos das
árvores) – Metamorfose – A bernaca – Alfabeto da árvore druídica

Capítulo 11: Cascas e madeiras

Inodoras – Madeiras – Madeiras de grande durabilidade – Madeiras com propriedades medicinais

Capítulo 12: Resinas e bálsamos

Gomas – Resina vegetal – Dádivas usadas em magia – Resinas – O incenso em cultos – O incensório – Óleos de resinas – Óleos

Bellouesus /|\

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