Katubodu̯ā

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Katubodu̯ā

Bellou̯esus Īsarnos

Katubodu̯ā é uma deusa guerreira da mitologia gaulesa, cujo no significa “corvo [bodu̯ā] da batalha [katu-]”. É conhecia por uma única inscrição, datada do período galo-romano, encontrada em Ley, na comuna de Mieussy (Alta-Savoia, região região Auvérnia-Ródano-Alpes): [C]Athuboduae / Aug(ustae) / Seruilia Teren/tia u(otum) s(oluit) l(ibens) m(erito), “À venerável Cathubodua, Seruilia Terentia cumpriu sua promessa de boa vontade e merecidamente”. A deusa irlandesa Badb Catha tem o mesmo nome, apenas com os elementos invertidos. Em seu Répertoire des dieux gaulois, Nicole Jufer e Thierry Luginbühl ligam-na a outras deusas guerreiras, como Boudina, Bodua e Boudiga, cujos nomes comparilham a mesma raiz boud-, “vitória”. Assim, Katubodu̯ā seria comparável à deusa grega Nikē. A associação entre corvos e guerra é bem conhecida da mitologia nórdica, onde as valquírias escolhem os guerreiros que deviam sobreviver ou morrer em batalha, ficando os corpos dos mortos como pasto para as aves que acompanhavam essas deusas.

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Oráculo: Katubodu̯ā é a deusa da guerra e da batalha. Ela incita conflitos, profetiza sobre o combate, atiça os combatentes. A violência é sua natureza e esta deusa delicia-se com a morte, o conflito e a dor. Liga-se intimamente aos heróis, ajudando a treiná-los, inspirando-os e, por fim, levando-os à morte de forma grandiosa. Apesar da sua dureza, Katubodu̯ā não deve ser considerada uma deusa essencialmente maligna. Ela é uma personificação da guerra em todo o seu horror e naquilo de beleza que possa existir numa grande contenda: a firmeza, a coragem, a lealdade, a disciplina, a capacidade de renúncia e outros valores morais nobres. Katubodu̯ā está chamando você neste dia para ajudá-lo a encontrar a força heroica dentro de si, pois precisará em breve do que a deusa tem a ensinar. Respire fundo e abra-se. Depois de escolher alguém, Katubodu̯ā não vai embora.

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Belenos

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Belenos

Bellou̯esus Īsarnos

Em inscrições e manuscritos, seu nome aparece como Belenus, Belinus, Bellenus, Belanus e Belin, que, de acordo com Xavier Delamarre (Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72), deriva do gaulês belo-, bello-, “forte, poderoso”. Belenos é uma das deidades célticas mais amplamente veneradas. Registros da sua adoração espalham-se das Ilhas Britânicas aos Bálcãs. Há inscrições na Gallia Cisalpina, Gallia Transalpina, Illyricum (região no noroeste da Península Balcânica; atualmente, abriga a Sérvia, Montenegro, Kosovo, norte da Albânia, Bósnia e Herzegovina e Croácia), Noricum (corresponde, aproximadamente, à maior parte dos atuais estados austríacos da Estíria, Caríntia, Salzburgo, Alta Áustria e Baixa Áustria, além de parte da Baviera, na Alemanha), Britannia e Iberia. Belenos é o deus que traz a luz do conhecimento, profeta, regente dos oráculos mânticos, da medicina e da cura, sendo identificado comumente ao Apolo clássico. Possuía epítetos como U̯indonnos (“Brilhante”) e Teutorīx (“Rei do Povo”).

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Oráculo: talvez o tempo esteja fechado e chuvoso, porém a luz de Belenos U̯indonnos beijará o solo para trazer crescimento. Não pode haver florescimento sem umidade, a terra não pode produzir sem a água necessária oferecida pelas nuvens. Belenos rege este momento. Acenda dois fogos e passe entre eles para ficar livre do peso do período anterior, ofereça flores e realize uma divinação para obter o conselho do deus. Belenos Teutorīx destruirá a escuridão com sua lança de prata e, como Belenos Maponos (“Filho Divino”), entoará uma canção para orientá-lo no seu caminho.

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Artiū

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Artiū

Bellou̯esus Īsarnos

Chamada “Deusa Artio” (Dea Artio) na religião galo-romana, o seu nome deriva do proto-céltico *artos, “urso”. Evidências do seu culto foram encontradas sobretudo na região de Berna (Suíça), território antigamente ocupado pelos helvécios. A representação mais conhecida da deusa Artiū é uma peça em bronze na qual uma grande ursa, tendo atrás de si uma árvore, encara um mulher sentada numa cadeira, trazendo uma tigela de frutas no colo, talvez para alimentar a ursa. A base traz a inscrição Dea Artioni / Licinia Sabinilla (“para a deusa Artio / de Licina Sabinilla”). Artiū é uma deidade da vida selvagem; sinaliza a primavera, a abundância e a previdência, anuncia o renascimento depois do inverno. Emerge do seu sono hibernal trazendo os frutos do seu celeiro no Outro Mundo.

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Oráculo: simbolicamente, a hibernação da ursa durante o inverno, quando se dá o período de gestação, representa uma descida à escuridão, enquanto seu ressurgimento, acompanhada dos filhotes, é o retorno à luz com os frutos da experiência acumulada durante a jornada. Respire profundamente e recolha-se. Desça ao fundo de si mesmo, afastando-se tanto quanto possível de quaisquer influências externas. Observe honestamente, sem medo ou pena de si mesmo (pois ambos são sentimentos inúteis), o que está no seu íntimo. Volte, abra a porta, deixe que a luz entre e ilumine os cantos mais afastados do seu íntimo. É primavera. Os filhotes da deusa terão abundância de alimento nessa estação, no verão e no outono para fortalecer-se. Artiū protege suas crias. Também as orienta e corrige, como devem fazer as mães.

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Clocha na Fáistine: As Pedras da Divinação

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Clocha na Fáistine: As Pedras da Divinação

Bellou̯esus Īsarnos

São três pedras que caibam na mão e sejam semelhantes em peso, tamanho e textura. Devem ser levadas sempre pelo adivinho em algum tipo de bolsa perto do corpo para que se tornem parte do mesmo e estejam a qualquer momento prontas para ser usadas na fáistine (“divinação” < fáith, “vidente, adivinho, profeta” + –sine, sufixo formador de substantivos abstratos a partir de outros substantivos).

A pedra vermelha representa o consulente e a sua personalidade. A pedra clara representa todas as coisas positivas. A pedra escura representa todas as coisas que se interpõem no caminho do consulente.

Pegue as pedras da bolsa e segure-as na sua mão enquanto formula mentalmente, com toda a clareza possível, a questão que será perguntada no sortilégio. Role as pedras na sua mão até que se aqueçam confortavelmente, o que pode levar de poucos momentos a alguns minutos. Enquanto aquece as pedras, repita a pergunta para si mesmo, aquecendo-a também. Antes de lançar as pedras, determine o que é mais relevante para a resposta. Quanto mais detalhada a indagação, melhor será o resultado do sortilégio.

Quando sentir que as pedras estão aquecidas, lance-as sobre uma superfície que tenha algum tipo de delimitação. Pode ser um canteiro gramado, um toco achatado de árvore, um tecido usado no altar. As três pedras podem ser lançadas juntas ou uma por vez sem prestar atenção. Nesse caso, seria aconselhável que a superfície tivesse algum tipo de limite capaz de fazer a pedra voltar para dentro da área de observação.

A partir desse ponto, o sortilégio torna-se bastante simples.

Pedra clara: significa “Sim”.
Pedra escura: significa “Não” ou “Não favorável”.
Pedra vermelha: dará a medida da resposta. A pedra que estiver mais perto dela terá a dominância. Se as duas pedras estiverem à mesma distância da pedra vermelha, o significa será “Pergunte novamente mais tarde”.

Esse é o modo mais fácil para obter algum significado da consulta. Entretanto, muito mais pode ser obtido pela observação do modo como as pedras interagem umas com as outras. Para tanto, você deve ser capaz de observá-las no percurso desde o lançamento da sua mão até o ponto onde finalmente caírem. Tudo possui significado. Portanto, olhe com cuidado. Trate as pedras oraculares com reverência e respeito, pois são uma extensão de você mesmo e da sua vontade.

Três pedras na luz são lançadas, uma por vez ou como lhes convém.
Rubra para a dúvida que na mente crepita, a busca de harmonia sem desdita.
Clara para os poderes que ajudarão, lugares e pessoas sem mal no coração.
Escura para as forças que barrarão o caminho, lugares e pessoas de coração mesquinho.
Três pedras são jogadas na luz, seu voo rápido à Visão conduz.
Escolhe a pergunta ao sentir as pedras, da medula dos ossos chama a Inspiração.

I Onde estão as pedras?

Examine a proximidade entre a pedra clara, a pedra escura e a pedra vermelha. Se, por exemplo, a pedra clara estiver próxima da vermelha, à direita, isso pode significar a concretização iminente do oráculo. As medidas da distância devem ser feitas com base nos dedos, mãos e braços do adivinho.

II Quando ocorrerá o resultado?

Distâncias que possam ser medidas em dedos indicariam um acontecimento muito próximo (talvez dentro de horas). Distâncias que possam ser medidas em mãos indicariam um tempo mais longo (talvez dentro de dias). Distâncias que possam ser medidas em braços indicariam um tempo ainda mais longo, talvez muito distante para especificar (semanas ou mais distante que isso).

Determine previamente as suas unidades de medidas e aplique-as de modo consistente durante todo o procedimento. Por exemplo, use a largura do seu polegar para indicar um grupo pequeno de pessoas (3 ou 4), a largura da sua mão para um grupo maior (10 a 15), enquanto uma distância maior que a existente entre os seus dedos e o cotovelo indicaria um grande grupo de pessoas (uma centena ou mais).

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Se a pedra clara for a mais próxima da vermelha, estando, no entanto, vários centímetros distante, isso poderá indicar que a previsão não se realizará imediatamente ou ainda que será necessário muito esforço para a sua concretização. Também pode indicar que o grupo de pessoas envolvido na sua questão é tão grande que um consenso entre elas seja impossível, de modo que o resultado não ocorrerá a não ser que alguém exerça uma liderança firme e tome decisões.

III Qual a distância da pedra vermelha?

A distância das pedras clara e escura em relação à vermelha deve ser medida considerando-se a pessoa que as lançou. Para cada braço de distância que as pedras estejam separadas uma da outra, entende-se que representem um período de tempo ou quantidade de esforço a ser aplicado. Se as pedras estiverem à distância de uma mão, o efeito então será mais imediato e, caso estejam se tocando, é provável que o resultado já esteja a ponto de acontecer.

IV Quão perto uma da outra?

Se as pedras clara e escura estiverem em lados opostos da pedra vermelha, não estarão realmente causando efeito algum uma sobre a outra. Os resultados ocorrerão independentemente da influência positiva ou negativa que rodeiem essa questão. Contudo, se as duas pedras estiverem perto uma da outra, os resultados ocorrerão devido a uma interação entre as duas forças. Pode-se dizer que estejam bloqueando-se mutuamente ou de algum modo trabalhando juntas com vistas ao resultado divinatório. Na figura abaixo, a pedra escura está mais próxima do que a clara, ficando entre esta e a vermelha, de modo que, embora os dois resultados estejam similarmente próximos da pedra vermelha, a força positiva necessitará de muito esforço para sobrepujar as influências da pedra escura, pois esta se coloca como um obstáculo no caminho do progresso.

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V Quão perto de uma pessoa?

Uma vez que as pedras tenham chegado ao chão, a sua posição poderá oferecer presságios relativamente às pessoas em pé ao redor delas. Imagine a seguinte situação: no curso de um ritual, é preciso escolher quem será o encarregado de fazer as oferendas. Com as pessoas agrupadas em círculo, todas à mesma distância (esse é um elemento importante para uma indicação precisa), lançam-se as pedras. A pessoa escolhida será aquela de quem a pedra clara cair mais perto.

VI As pedras se tocam?

Não é usual que as pedras se toquem depois de chegar o chão. Há lançamentos em que as pedras afastam-se ao ser jogadas e há lançamentos em que caem juntas, mas ocasionalmente se tocam ao ser jogadas ou ao cair.

Se a pedra clara ou a escura baterem na pedra vermelha, é razoável supor que essa influência terá impacto no resultado, independente do presságio indicado por sua posição final.

Se a pedra clara e a escura se chocarem antes de cair, pode-se entender que as duas forças estavam em competição direta nesse presságio antes da formulação final.

Na imagem abaixo, vemos que a pedra clara literalmente aterrissou sobre a escura. Não somente as energias escuras estão sendo bloqueadas pelas claras, mas também estão sendo reprimidas ou impedidas.

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VII Sugestões

• Enquanto estiver se acostumando com este oráculo, anote os resultados dos lançamentos, a sua interpretação e compare-os com o desenvolvimento que a questão perguntada teve depois. Isso ajudará a compreender melhor a mensagem das pedras e é um procedimento que poderá ser útil no uso de qualquer ferramenta divinatória.

• Às três pedras oraculares acrescente uma quarta, proveniente do seu altar pessoal. Essa pedra não será usada na divinação, mas como uma forma de conexão com o seu espaço doméstico de devoção e toda a carga emocional que você liga a ele.

• Tenha também uma bolsinha com pequenas oferendas (cristais, ornamentos etc.) a ser deixadas em lugares que você ache especiais.

• Se houver algo pessoal que possa acrescentar significado a esta ou a outra ferramenta divinatória, use sem receio.

Echtra Cormaic i Tír Tairngire

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Echtra Cormaic i Tír Tairngire

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Do Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”, col. 889, l. 26, p. 181; Irlanda, c. 1391 – c. 1401.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Certa vez em que Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas, estava em Liathdruim, ele viu um rapaz no campo diante de sua fortaleza, tendo na mão um cintilante ramo encantado com nove maçãs de ouro vermelho. E era esta a propriedade desse ramo, que, quando qualquer um o agitasse, homens e mulheres feridos seriam acalentados pelo som da dulcíssima música mágica que as maçãs emanavam e outra propriedade era que ninguém na terra manteria no pensamento qualquer preocupação, pesar ou tristeza na alma quando o ramo lhe fosse balançado e, com o sacudir do ramo, ninguém se lembraria de qualquer mal que pudesse ter ocorrido. Cormac disse ao jovem: “É teu esse ramo?” “Certamente é meu”, disse o rapaz. “Tu o venderias?”, perguntou Cormac. “Vendê-lo-ia”, falou o jovem, “pois nunca tive nada que eu não vendesse”. “O que pedirias por ele?”, disse Cormac. “O preço que a minha boca disser”, disse o rapaz. “De mim o receberás”, disse Cormac, “e dize o teu preço”. “A tua esposa, o teu filho e a tua filha”, respondeu o rapaz, “isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Terás a todos”, disse Cormac.

Depois disso, o rapaz entregou o ramo e Cormac levou-o a sua própria casa, a Ailbhe, a Eithne e a Cairbre. “Belo é o tesouro que tens”, disse Ailbhe. “Isso não me espanta”, respondeu Cormac, “pois paguei bom preço por ele”. “O que deste por ele ou que troca fizeste?”, perguntou Ailbhe. “Cairbre, Eithne e tu mesma, ó Ailbhe”. “Isso é uma lástima”, falou Eithne, “ainda que não seja verdade, pois pensamos que não haja na face da terra tesouro pelo qual nos trocarias”. “Dou a minha palavra”, disse Cormac, “de que vos dei por este tesouro”. Tristeza e pesar encheram os seus corações ao saber que aquilo era verdade e Eithne disse: “É uma barganha muito dispendiosa entregar-nos em troca de qualquer ramo no mundo”.

Quando Cormac percebeu que a tristeza e o pesar haviam invadido os seus corações, agitou o ramo contra eles e, ao ouvirem a suave e doce música do ramo não mais pensaram em qualquer mal ou preocupação que os tivesse atingido e saíram para encontrar o rapaz. “Aqui”, disse Cormac, “tens o preço que pediste pelo ramo”. “Bem cumpriste a tua promessa”, disse o rapaz, “e recebeste votos de vitória e bençãos em atenção à tua veracidade”. E deixou Cormac com desejos de prosperidade e saúde e ele e os seus companheiros seguiram o seu caminho.

Cormac foi para a sua casa e, quando essas notícias foram ouvidas em toda a Ériu, altos clamores de pranto e lamentação ergueram-se em cada parte dela e sobretudo em Liathdruim. Quando Cormac escutou os estrondosos clamores em Temhair, sacudiu o ramo entre eles, de modo que não houve mais tristeza ou pesar nos corações de ninguém.

Ele assim continuou durante todo aquele ano, até dizer: “Hoje faz um ano que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram tomados de mim e segui-los-ei pelo mesmo caminho por onde foram”.

Então Cormac saiu para procurar o caminho pelo qual vira partir o rapaz e uma escura névoa mágica levantou-se ao seu redor e ocorreu que ele chegou a uma admirável e maravilhosa planície. Era assim essa planície: havia ali uma soberba e grandíssima legião de cavaleiros e a atividade que estavam a realizar era cobrir uma casa com um telhado de penas de pássaros exóticos e, ao terminar de cobrir metade da casa, saíam a procurar penas de aves para a outra e, quanto à metade da casa que já haviam coberto, sobre ela não encontravam uma só pena ao retornar. Cormac ficou longo tempo a observá-los nesse mister e assim falou: “Não mais vos observarei, pois percebo que nisso vos esforçareis do começo ao fim do mundo”.

Cormac seguiu o seu caminho e estava a perambular pela planície quando viu um jovem de estranha aparência a caminhar por ali e o seu ofício era este: ele arrancava do chão uma enorme árvore e partia-a entre a raiz e a copa e com ela fazia uma grande fogueira e saía a procurar outra árvore e, ao retornar, não encontrava diante de si sequer um restolho da primeira árvore que não estivesse queimado e consumido. Por um grande lapso de tempo esteve Cormac a observá-lo naquele dilema e por fim disse: “Certamente te deixarei a partir deste momento, pois, ficasse eu a olhar-te para sempre, estarias na mesma até o fim dos tempos”.

Depois disso, Cormac começou a percorrer a planície até divisar três imensas fontes nas extremidades da planície e assim eram essas fontes: nelas havia três cabeças. Cormac achegou-se à fonte que estava mais próxima de si e assim era a cabeça que nela estava: uma correnteza fluía para sua boca e duas correntezas dela fluíam. Cormac avançou para a segunda fonte e a cabeça que estava nessa fonte era assim: uma correnteza para ela fluía e outra correnteza dela fluía. Ele avançou para a terceira fonte e assim era a cabeça que nela estava: para sua boca três correntezas fluíam e somente uma correnteza dela fluía. Com isso foi Cormac tomado de grande assombro e disse: “Não mais estarei a observar-vos, pois jamais encontrarei homem que me conte as vossas histórias e acredito que descobriria bom ensinamento nos vossos significados se os compreendesse”.
O rei de Ériu seguiu o seu caminho e não havia caminhado muito quando viu um vasto campo diante de si e uma casa no meio do campo. E Cormac aproximou-se da casa e nela entrou. E o rei de Ériu saudou os que dentro estavam. Um casal muito alto com vestes multicoloridas, que dentro estava, respondeu-lhe e rogou-lhe que permanecesse. “Quem quer que sejas, ó jovem, pois já não é hora de viajares a pé”.

Assim, Cormac, filho de Art, sentou-se e ficou certamente satisfeito por encontrar hospitalidade naquela noite. “Levanta-te, ó homem da casa”, disse a mulher, “pois há um honesto e bem-apessoado viajante em nossa casa e como poderias saber se não é algum honrado nobre entre os homens do mundo? E, se tiveres algum tipo de comida ou carne da melhor qualidade, que me sejam trazidos”.

Ao escutá-la ergueu-se o jovem e deste modo voltou até eles, isto é, com um enorme javali selvagem nas costas e uma tora em sua mão e jogou a tora e o suíno no chão e disse: “Aqui tendes a carne e cozinhai-a para vós mesmos”. “Como devo fazê-lo?”, perguntou Cormac. “Ensinar-te-ei”, disse o jovem, “ou seja, racha esta grande tora que tenho e dela faze quatro peças e joga um quarto do javali e um quarto da tora embaixo dele e conta um conto verdadeiro e o javali será cozido”.

Disse Cormac: “Narra tu mesmo o primeiro conto e então a tua esposa e depois disso será a minha vez”. “Falas acertadamente”, disse o jovem, “e penso que tens a eloquência de um príncipe e para começar contar-te-ei um caso. Aquele suíno que eu trouxe”, ele continuou, “não tenho senão sete desses porcos e com eles eu poderia alimentar o mundo inteiro, pois, dentre esses porcos o que for morto, tens apenas de colocar os seus ossos de volta no chiqueiro e na manhã seguinte ele será encontrado vivo”. Esse caso era verdadeiro e o quarto do porco ficou cozido. “Conta tu uma história agora, ó mulher da casa”, disse o jovem. “Contarei”, ela falou, “e põe tu ali um quarto do javali selvagem e sob ele um quarto da tora”. Assim foi feito.

Disse ela: “Tenho sete vacas brancas e elas enchem as sete cubas com leite todos os dias e dou minha palavra que elas produziriam leite suficiente para satisfazer todos os homens do mundo caso estes estivessem a bebê-lo na planície”. Esse caso era verdadeiro e, por conseguinte, o quarto do porco ficou cozido.

Disse Cormac: “Se verdadeiras foram as vossas narrativas, és por certo Manannán e ela é tua esposa, pois ninguém na face da terra possui tais tesouros senão Manannán, eis que foi a Tír Tairngire que ele foi em busca dessa mulher e obteve com ela essas sete vacas e sobre elas tossiu até aprender os miraculosos poderes da sua ordenha, ou seja, que elas poderiam encher sete cubas de uma vez só”. “Com total acerto nô-lo disseste, ó jovem”, disse o homem da casa, “e conta-nos um caso a teu próprio respeito agora”.

Disse Cormac: “Contarei e põe tu um quarto da tora sob o caldeirão até que eu te conte um conto verdadeiro”. Assim foi feito e Cormac disse: “Seguramente estou em uma busca, pois hoje se completou um ano desde que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram levados de mim”. “Quem os tomou de ti?”, perguntou o homem da casa. “Um jovem veio a mim”, disse Cormac, “que segurava em sua mão um ramo encantado e surgiu em mim grande desejo por esse ramo, de modo que lhe concedi por ele qualquer preço que pedisse e ele exigiu-me o cumprimento da minha palavra e a recompensa que de mim extorquiu foram a minha mulher, o meu filho e a minha filha, isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Se é veraz quanto dizes”, falou o homem da casa, “és por certo Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas”. “Deveras sou”, disse Cormac, “e é à procura deles que agora estou”. Verdadeiro era o relato e o quarto do porco ficou cozido.

Disse o jovem: “Agora come a tua refeição”. “Jamais consumi uma refeição”, disse Cormac, “com somente duas pessoas em minha companhia”. “Comerias com três outras, ó Cormac?”, perguntou o jovem. “Comeria, se me fossem queridas”, disse Cormac.
O homem da casa levantou-se e abriu a porta mais próxima da casa e saiu e trouxe para dentro aqueles a quem Cormac buscava e então ânimo e júbilo tomaram Cormac.

Manannán então veio a ele em sua forma verdadeira e assim falou: “Fui eu quem os levou de ti e fui eu quem te deu esse ramo e foi a fim de trazer-te a esta casa que os tomei de ti e agora aqui está a tua carne e come a comida”, disse Manannán. “Assim farei”, disse Cormac, “se puder compreender os enigmas que hoje vi”. “Irás compreendê-los”, disse Manannán, “e fui eu quem te trouxe até eles para que os pudesses ver. A legião de cavaleiros que te apareceu a cobrir a casa com as penas de pássaros, que, conforme lograssem eles cobrir uma metade da casa, costumavam dali desaparecer, saindo então em busca das penas de outras aves para o restante, tal assemelha-se aos poetas e às pessoas que buscam a sorte, pois, ao partirem, tudo o que deixam para trás em suas casas é consumido e assim continuam para sempre. O rapaz que viste a acender o fogo e que partia a árvore entre a raiz e a copa e depois encontrava-a consumida enquanto ia alhures em busca de outra árvore, o que isso representa são aqueles que distribuem comida enquanto todos os demais estão sendo servidos, eles próprios preparando-a e todos os outros disso tirando proveito. As fontes que viste, nas quais havia três cabeças, assemelham-se aos três que no mundo há. Tais são eles: a cabeça que viste com uma correnteza a fluir para si e duas correntezas a fluir de si, seu significado é o homem que dá mais do que recebe do mundo. A cabeça que possui uma correnteza fluindo para si e uma correnteza de si fluindo é o homem que dá do mundo na mesma medida em que deste recebe. A cabeça que viste com três correntezas a fluir para sua boca e uma correnteza a fluir desta é o homem que recebe muito e dá pouco e é o pior dos três. E agora come a tua refeição, ó Cormac”, disse Manannán.

Depois disso, Cormac, Cairbre, Ailbhe e Eithne sentaram-se e uma toalha foi estendida diante deles. “É algo de muito precioso isto que se encontra diante de ti, Cormac”, disse Manannán, “pois não há comida, por mais refinada que seja, que lhe possa ser solicitada que não seja certamente recebida”. “Isso é bom”, disse Cormac.

Depois disso, Manannán levou a mão a seu cinturão e trouxe dali um cálice e mostrou-o em sua palma. “É das virtudes desta taça”, disse Manannán, “que, ao ser dito diante dela um relato falso, quebre-se em quatro partes e, quando um relato verdadeiro for narrado diante dela, ficará inteira outra vez”. “Que seja demonstrado”, disse Cormac. “Isso será feito”, disse Manannán. “Essa mulher que levei de ti teve outro homem desde que a trouxe comigo”. Então o cálice quebrou-se em quatro partes. “Isso é uma mentira”, disse a esposa de Manannán, “digo que eles não viram homem nem mulher a não ser a si mesmos desde que te deixaram”. Esse relato era verdadeiro e o cálice ficou inteiro novamente.

Disse Cormac: “São coisas muito preciosas estas que possuis, ó Manannán”. “Seriam boas para ti”, respondeu Manannán, “portanto, todas as três serão tuas, ou seja, o cálice, o ramo e a toalha, em respeito à tua caminhada e à tua jornada neste dia. E come agora a tua refeição, pois, ainda que houvesse uma legião e uma multidão, neste lugar mesquinhez não encontrarias. E gentilmente vos saúdo a todos, pois fui eu quem sobre vós lançou um encantamento para que em amizade estivésseis comigo nesta noite.

Depois disso, ele comeu a sua refeição e boa foi essa refeição, pois não havia tipo de carne em que pensassem que não fosse encontrado na mesa nem tipo de bebida que imaginassem que não fosse encontrado na taça e profusamente agradeceram a Manannán. Contudo, quando eles haviam consumido a sua refeição, isto é, Cormac, Eithne, Albhe e Cairbre, um divã lhes foi preparado e foram dormir e dormiram docemente e onde acordaram foi na aprazível Liathdruim, com a sua toalha, a sua taça e o seu ramo.

E essa foi a peregrinação de Cormac e como ele obteve o seu ramo.

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Tecosca Cormaic

As Instruções de Cormac

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?

– Não é difícil dizer – disse Cormac.

– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?

– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.

– Não é difícil dizer – falou Cormac.

– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Martrae

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Martrae

Filus trechenelae martre daneu adrímiter ar cruich du duiniu, ma desgné: bánmartre ocus glasmartre ocus dercmatre. issí bánmartre do duiniu, intain scaras ar Dea fri cach reet caras cení césa aíni na laubí n-oco. is sí ind glasmartre dó, intain scaras fria thola leol céssas saítbor i-ppennit ocus aithrigi. is sí in dercmartre dó, foditu cruche ocus diorcne ar Chríst, amail tondechomnuchuir dundaib abstolaib, oc ingrimmim inna clóen ocuis oc forcetul recto Dée. congaibetar inna tre chnél marte-so issnib colnidib tuthégoth dagathrigi, scarde fria ola, céste sáithu, tuesmot a fuil i n-aíni ocuis i laubair ar Chríst.

Martírio

Eis que há três tipos de martírio que se contam como uma cruz para o homem, ou seja, o martírio branco [bánmartre], o martírio verde [ou azul, glasmartre; eram tidos como nuances da mesma cor] e o martírio vermelho [dercmartre]. Eis aqui o que seja o martírio branco para o homem: a partir do momento em que, pelo amor de Deus, ele abandona tudo o que ama, embora não sofra por isso jejuns e tribulações. Eis o que seja o martírio azul para ele: quando, por meio de jejuns e tribulações, ele renuncia os seus desejos carnais ou sofre provação em penitência e arrependimento de suas faltas. Eis o que seja o martírio vermelho para ele: suportar uma cruz ou a destruição pelo amor de Cristo, como o suportaram os apóstolos ao ensinar a lei divina, apesar da perseguição dos perversos. Esses três tipos de martírio abrangem os homens carnais que se voltam ao bom arrependimento, que se afastam dos seus desejos, que derramam o seu sangue em jejum e trabalhos pelo amor de Cristo.

Trecho da Homilia de Cambrai, o mais velho registro de um texto em prosa em irlandês antigo (séc. VII/começo do séc. VIII d.C.)

Comentário

A distinção do martírio branco e do martírio vermelho é frequente e não apresenta nada de original. O conceito de um martírio verde, ao contrário, é unicamente irlandês e vem completar o grupo formado pelos outros dois, retomando o velho esquema trifuncional indo-europeu. Associado ao amor de Deus, o martírio branco coloca-se ao nível do contato com o divino; o martírio vermelho relaciona-se à violência física e refere-se ao sofrimento de Jesus, o deus do Cristianismo ferido pela lança do soldado Longinus e sacrificado na cruz; o martírio verde define-se como a rejeição às paixões físicas e aos impulsos carnais, a tudo o que se liga à terceira função indo-europeia, pois diz respeito aos bens materiais e à perpetuação da espécie.

Bellou̯esus Īsarnos